<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-1696221081602909999</id><updated>2012-02-16T20:19:12.600-08:00</updated><title type='text'>Luis Avelima</title><subtitle type='html'>Poeta, compositor, jornalista e intérprete</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://luisavelima.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1696221081602909999/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://luisavelima.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Luis Avelima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14652451490301112811</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://4.bp.blogspot.com/_z3h_-f0vgz0/THgR0G-9rRI/AAAAAAAAACE/_Wi40mKv1sg/S220/66437_1236564366.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>18</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1696221081602909999.post-5525761209626097485</id><published>2010-12-07T07:31:00.000-08:00</published><updated>2010-12-15T07:15:12.388-08:00</updated><title type='text'>Venedikt Erofeev, um bebum genial</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_z3h_-f0vgz0/TP5TKKxwLTI/AAAAAAAAAEM/_DiOIlqU1jo/s1600/venedikt_erofeev_0.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" ox="true" src="http://3.bp.blogspot.com/_z3h_-f0vgz0/TP5TKKxwLTI/AAAAAAAAAEM/_DiOIlqU1jo/s1600/venedikt_erofeev_0.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;Eu morava em Moscou&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;e trabalhava&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;na Rádio Central, onde fazia locução de programas para os países de língua portuguesa. 1990 era um ano complicado na vida soviética, um revirar constante de situações, notícias escabrosas vindo à luz, homossexuais saindo dos guetos, ciganos surgindo dos porões, agenciadores de prostitutas antenados às portas dos hotéis e estações ferroviárias. E enquanto alguns autores também vinham à luz, com seus livros reeditados ou editados pela primeira vez, algumas vozes se calavam. Naquele ano morria um escritor marginalizado, esquecido propositalmente, de uma força descomunal e que, a exemplo do cantor Vladmir Visotski, sua obra era escondida nas gavetas de muitos dos poderosos do Kremlin. Não podiam admitir, mas muitos desses o admiravam. Eu preciva noticiar seu desaparecimento. Não pude.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Quem é esse escritor marginalizado e perseguido pelo sistema soviético? Certamente aqui no Brasil ninguém, ou quase ninguém sabe de sua existência. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;Venedikt Erofeev (&lt;i&gt;&lt;span lang="RU" style="mso-ansi-language: RU;"&gt;Венедикт Васильевич Ерофеев&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;; 24 Outubro 1938) era uma personalidade lendária. Em 1970 editou em dois exemplares datilografados sua novela &lt;i&gt;Moscou-Petuchki&lt;/i&gt; (&lt;i&gt;Москва – Петушки&lt;/i&gt;), que em poucas semanas circulou por toda Moscou, varou regiões indevassáveis, penetrou fronteira a fora.&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;Dele falava-se constantemente, mas pouco o conheciam realmente, mesmo porque ele sequer gostava de qualquer popularidade, principalmente de paparicos. E como vivia? Como conseguia tempo para escrever?&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;Trabalhava permanentemente. Nas obras em que trabalhava, quando escrevia, deitado no beliche de um vagão que servia de moradia para construtores civis, chegavam perto dele e perguntavam: “O que escreves? Por acaso queres entrar para a Academia? Seja como for, bem sabes que não conseguirás. Melhor encher a cara de vodca, aqui conosco.”&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"&gt;Filho de “inimigo do povo”, nascido na região de Murmansk, depois do curso secundário mudou-se para Moscou onde tentou uma vaga na Universidade. Conseguiu-a, mas um ano e meio depois era excluído por não freqüentar as aulas de “Preparação Militar”. A partir daí (1957), trabalhou nas mais diferentes funções: carregador numa loja de produtos alimentícios, ajudante de obras na construção civil, guarda, sondador-perfurador geológico, bibliotecário, e vai por aí. Mas o único trabalho que realmente agradou-lhe foi o de ajudante numa expedição parasitológica, na estepe Golodnaia (estepe da Fome), no Uzbequistão, e o de ajudante de laboratório de pesquisa científica para a luta contra insetos voadores e sanguessugas, no Tadjiquistão.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;Começou a escrever a partir dos cinco anos. Sua primeira obra digna de nota são os &lt;i&gt;Escritos de um psicopata&lt;/i&gt;, iniciados aos 17 anos. É a mais volumosa e absurda dentre tudo o que escreveu. Em 1962 &lt;i&gt;Boa Nova&lt;/i&gt;, obra que alguns “especialistas” consideraram uma “confusa tentativa de criar um Evangelho do Existencialismo Russo”, tal como Nietzche, “virado do avesso”. Escreveu vários artigos sobre os noruegueses Hamsun e Byerson, assim como acerca dos dramas da última fase de Avicena. Todos eles foram recusados pelos editores porque eram “metodologicamente horripilantes”. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;Nos últimos anos, tudo o que escrevia ia se acumulando em dezenas de cadernos e grossos manuscritos. Sua doença (câncer na garganta), revelada em 1985, adiou indefinidamente a concretização de seus planos.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;Foi submetido a duas complicadas cirurgias, recebia uma mísera pensão por invalidez. Até os 50 anos, nem em sonhos poderia pensar em seu reconhecimento como escritor. Reclamava que rebaixaram seu grau de invalidez. Dos 50 rublos que recebia, passou a receber 26. No atestado escreveram que “assim e assado”, “pode ter por ocupação uma atividade de escriturário ou conforme os seus hábitos profissionais”. Mas ele acabava se conformando: “Pagam-me exatamente tanto quanto minha Pátria considera necessário.” &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"&gt;Seu aparecimento diante dos guardiões das regras éticas da escrita, por certo deixou alguns chocados pelos “mimos” de sua linguagem.&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;Não reclamava, apenas dizia que os maiores adversários de suas expressões, tanto na imprensa como na literatura, eram exatamente os que mais as utilizavam em suas reuniões e plenárias. Tinha idéias para tudo. Dissertava sobre a embriagues, sobre o sexo, sobre os poderes, sobre as mulheres. Em seu &lt;i&gt;Moscou-Petuchki&lt;/i&gt;, único livro editado, fala das mulheres:&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;“Eu era contraditório. Por um lado gostava que elas tivessem aquela cintura, já que nós não temos cintura nenhuma. Isso provocava em mim... como dizer? Volúpia? Sim, despertava em mim volúpia. Mas por outro lado, elas retalharam Marat a navalhadas. Ora, Marat era incorruptível e não deveria ter sido retalhado! Só por isto já matava toda a volúpia. Por um lado, como Karl Marx, eu gostava da fraqueza delas, isto é, elas são obrigadas a mijar de cócoras, e isso agradava-me, enchia-me... bem, de quê? De volúpia? Sim, algo assim. Mas por outro lado, foram elas que dispararam&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;contra Ilitch! Isto matava novamente a volúpia: podem ficar de cócoras, mas para que disparar contra Ilitch? Seria ridículo falar de volúpia depois disto.”&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;Em 1973, &lt;i&gt;Moscou-Petuchki&lt;/i&gt; foi editado em Israel, quatro anos depois na França, RFA, Estados Unidos, Bélgica, Holanda, Luxemburgo, Polônia, Iugoslávia. Em todos os países obteve sucesso, mas em Moscou ainda passava despercebido “oficialmente”.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"&gt;Perguntado se se considerava um dissidente, respondia que não, que nunca tivera nada a ver com a história. Sempre viveu à margem da dissidência. A antimusicalidade dos dissidentes afastava-o, suas vozes não criavam harmonia.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;Venedikt morreu. E quase não se noticiou. Quando propus. na Rádio Central, dizer uma notinha rápida sobre Erofeev, Pugachov, o editor, alertou-me. Não era salutar, não devia atiçar um fogo em vias de se apagar.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"&gt;“E se eu morrer um dia&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;– e morrerei brevemente --&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;sei que morro sem ter aceitado este mundo,. Tê-lo-ei aprendido de perto e de longe, por fora e por dentro, mas morro sem o ter&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;aceitado. Morrerei e Ele perguntar-me-á: “Gostaste de viver por lá? Foi bom ou o quê?”. Eu ficarei em silêncio, de olhos baixos. Essa mudez é conhecida pó todos os que sabem o que acontece quando se sai de uma bebedeira duradoura e pesada. Não é a vida de um homem uma momentânea bebedeira da alma? Todos nós vivemos como que embriagados, só que cada a seu modo: uns bebem muito, outros bebem menos. E o efeito é diferente em cada um: um ri-se nas barbas deste mundo, outro chora ao peito do mundo. Uns já vomitaram e sentem-se melhor, mas outros só agora começam a ter vômitos. E eu, o que sou? Já provei muitas coisas mas nenhuma deu resultado. nem sequer me ri pra valer uma única vez, nem sequer vomitei uma única vez. Eu, que experimentei tanto neste mundo, tanto que já perdi a conta e a seqüência, estou mais sóbrio do que ninguém; só que já não me faz nenhum efeito... “Porque estás mudo? – pergunta-me Deus, envolto em relâmpagos azulados. O que responder? Continuarei assim, calado, calado...”&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"&gt;Espero que lá no alto Venedikt Erofeev tenha resolvido falar, para alegria de anjos e santos.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"&gt;PS.&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;Traduzi o seu &lt;i&gt;Moscou-Petuchki&lt;/i&gt;. Cadê editor?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"&gt;&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1696221081602909999-5525761209626097485?l=luisavelima.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://luisavelima.blogspot.com/feeds/5525761209626097485/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://luisavelima.blogspot.com/2010/12/veneditk-erofeev-um-bebum-genial.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1696221081602909999/posts/default/5525761209626097485'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1696221081602909999/posts/default/5525761209626097485'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://luisavelima.blogspot.com/2010/12/veneditk-erofeev-um-bebum-genial.html' title='Venedikt Erofeev, um bebum genial'/><author><name>Luis Avelima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14652451490301112811</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://4.bp.blogspot.com/_z3h_-f0vgz0/THgR0G-9rRI/AAAAAAAAACE/_Wi40mKv1sg/S220/66437_1236564366.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_z3h_-f0vgz0/TP5TKKxwLTI/AAAAAAAAAEM/_DiOIlqU1jo/s72-c/venedikt_erofeev_0.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1696221081602909999.post-6356124406683556161</id><published>2010-12-06T10:33:00.000-08:00</published><updated>2010-12-06T10:37:07.474-08:00</updated><title type='text'>Os passos de um penitente</title><content type='html'>&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_z3h_-f0vgz0/TP0sswiKHrI/AAAAAAAAAEI/PCv3rkJ7VV0/s1600/Mesquita.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="320" ox="true" src="http://1.bp.blogspot.com/_z3h_-f0vgz0/TP0sswiKHrI/AAAAAAAAAEI/PCv3rkJ7VV0/s320/Mesquita.jpg" width="222" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;Há no Brasil um rosário de histórias, muitas vezes incríveis, que passam despercebidas,e que poderiam muito bem suprir autores na construção de suas personagens. Há um mundo urbano a ser descoberto, há um mundo rural fantástico, que já nos deu autores magníficos como Ricardo Guilherme Dicke, Cornélio Penna, e continua apresentando como é o caso de Nicodemos Sena.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;Pois bem, nos anos quarenta&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;surgia em peregrinação por alguns estados nordestinos uma figura penitente chamada Pedro Batista que acabará sendo a&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;mola principal para o desenvolvimento de uma pequena localidade baiana chamada Santa Brígida.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;Não teve o mesmo destino de Antonio Conselheiro, e esse penitente que pregava e curava na terra natal de Maria Bonita, acabou por entrar para a história daquela gente, que até hoje o venera.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;O jornalista e escritor Humberto Mesquita, sempre muito atento às coisas de Brasil (quem não se lembra do mapeamento do Brasil, que ele fez quando atuava no SBT, chamado “Isto é Brasil”?) foi buscar na história desse penitente os subsídios para escrever o livro Santa Brígida, onde se entrecruzam realidade e ficção.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;Em seu livro a história começa no interior paraibano. Uma desilusão amorosa faz com que a personagem (que aqui atende por Paulo Calixto) que tinha tudo para seguir o mesmo destino de seus pares do campo, do eito da cana-de-açúcar, empreenda uma viagem pelos entrincheirados caminhos nordestinos, transformando-se em caixeiro-viajante, cargo que o tornará assassino e mudará a sua vida radicalmente. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;O autor não encaminha sua personagem para o óbvio. Ou seja, para “esquentar o enredo”, poderia ter apimentado a situação com enfrentamentos políticos, religiosos, mortandades. Não, é o entendimento que permitirá que a personagem se desenvolva e acabe construindo uma história de pura poesia.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;Humberto, que nos acostumamos a fazer poesia no vídeo, constrói em seu &lt;em&gt;Santa Brígida&lt;/em&gt;, um verdadeiro poemário.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;Serviço:&amp;nbsp;&lt;em&gt;&amp;nbsp;Santa Brígida&lt;/em&gt; – Humberto Mesquita, Ibrasa, 2009&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1696221081602909999-6356124406683556161?l=luisavelima.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://luisavelima.blogspot.com/feeds/6356124406683556161/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://luisavelima.blogspot.com/2010/12/os-passos-de-um-penitente.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1696221081602909999/posts/default/6356124406683556161'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1696221081602909999/posts/default/6356124406683556161'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://luisavelima.blogspot.com/2010/12/os-passos-de-um-penitente.html' title='Os passos de um penitente'/><author><name>Luis Avelima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14652451490301112811</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://4.bp.blogspot.com/_z3h_-f0vgz0/THgR0G-9rRI/AAAAAAAAACE/_Wi40mKv1sg/S220/66437_1236564366.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_z3h_-f0vgz0/TP0sswiKHrI/AAAAAAAAAEI/PCv3rkJ7VV0/s72-c/Mesquita.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1696221081602909999.post-4658323896267534056</id><published>2010-12-03T06:16:00.000-08:00</published><updated>2010-12-04T08:42:48.649-08:00</updated><title type='text'>Deus de Caim, Ricardo Guilherme Dicke</title><content type='html'>&lt;div style="margin: 0cm 7.5pt 11.25pt; text-align: justify;"&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_z3h_-f0vgz0/TPj-HLamw0I/AAAAAAAAAEE/QrN3AElvOTo/s1600/guilherme-dicke_2.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="320" ox="true" src="http://3.bp.blogspot.com/_z3h_-f0vgz0/TPj-HLamw0I/AAAAAAAAAEE/QrN3AElvOTo/s320/guilherme-dicke_2.jpg" width="233" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="color: #5e5e5e; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 11.5pt;"&gt;Há que render elogios rasgados a um escritor que vê na boa literatura uma forma, ainda, de salvar o mundo. Nicodemos Sena não é somente um bom escritor, mas tomou para si a incumbência de rastrear a boa literatura e, o que é difícil, sem se submeter a qualquer apoio de ordem governamental. Criou a editora LetraSelvagem e com ela começa a mostrar um panorama literário do mais alto nível, reunindo autores como Olga Savary, Santana Pereira, Caio Porfírio Carneiro, Marcelo Ariel, o excelente poeta Edvaldo de Jesus Teixeira e Ricardo Guilherme Dicke.&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="margin: 0cm 7.5pt 11.25pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #5e5e5e; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 11.5pt;"&gt;Todos aqueles que lêem a obra de Guilherme Dicke não economizam palavras para falar de suas qualidades literárias, da carga semântica que há num escritor que viveu a amargura do ostracismo, algo que, embora estranho, parece tão “natural” em se tratando de um país chamado Brasil, que pouco zela por sua memória e que apenas se “liga” naquilo que chamamos de imediatismo, naquilo que vira moda e certamente não ficará nos anais da arte de escrever. Sim, a mídia divulga agora o que amanhã não mais interessa e resta a nós, que ainda nos importamos com a literatura, revirar mundos e fundos para dizer dos que resistem e insistem em escrever.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="margin: 0cm 7.5pt 11.25pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #5e5e5e; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 11.5pt;"&gt;Acaso fizermos uma relação de autores de qualidade que foram esquecidos, teremos que preparar um lençol e deixar do lado um balde, porque só nos resta chorar: Samuel Rawet , autor de &lt;i&gt;Contos do Imigrante&lt;/i&gt;, que morreu solitário, em 1984, na cidade satélite de Sobradinho, perto de Brasília, e que, pese sua loucura, sua mania anti-semita, não poderia ter sido tão amordaçado;&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;Maura Lopes Cansado, autora de &lt;i&gt;Hospício é Deus&lt;/i&gt; e &lt;i&gt;O sofredor do ver&lt;/i&gt;, que amargou as agruras dos hospícios da vida; Salim Miguel, autor de &lt;i&gt;Nu na escuridão&lt;/i&gt;, que poderia ser melhor observado, continua lá pelos lados de Santa Catarina sem que se saiba do peso de sua obra. Enquanto isso autores de obra irregular vão sendo estudados, apresentados como supra-sumo, encastelados. Um monte de fedelhos querendo ser escritores.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="margin: 0cm 7.5pt 11.25pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #5e5e5e; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 11.5pt;"&gt;E por que seria diferente com Dicke, que transferiu-se do Rio de Janeiro para seu Mato Grosso natal, publicando de forma independente (os dois romances &lt;i&gt;O salário dos poetas&lt;/i&gt; e&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;i&gt;Rio abaixo dos vaqueiros&lt;/i&gt;)?&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: #5e5e5e; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 11.5pt;"&gt;Como surge Ricardo Guilherme Dicke no cenário literário nacional?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: #5e5e5e; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 11.5pt;"&gt;A história todos sabem: em 1967, o prêmio Walmap -- que fora idealizado em 1964 pelo banqueiro José Luiz de Magalhães Lins e o escritor Antonio Olinto --&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;premiou esse escritor fabuloso, ao lado de Oswaldo França Júnior, com uma obra que satisfazia em cheio o objetivo do certame, que era descobrir obras acima do chamado nível comum. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="margin: 0cm 7.5pt 11.25pt; text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #5e5e5e; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 11.5pt;"&gt;Deus de Caim,&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="color: #5e5e5e; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 11.5pt;"&gt; a obra de Dicke foi recebida com entusiasmo. Era mesmo diferente. Na linguagem de aparente simplicidade, na elegância sutil de personagens que nada tinham de provincianas. Naquele ano havia sido lançado &lt;i&gt;Cem anos de solidão&lt;/i&gt;, de Gabriel Garcia Marques que em duas semanas vendera 8000 exemplares, que também se alicerçava em laços de família e suas previsões de um fim anunciado; o Brasil perdia Guimarães Rosa e deixava de ser República dos Estados Unidos do Brasil para se tornar República Federativa do Brasil; acontecia a Guerrilha de Caparaó, era mesmo o ano da Psicodélia.&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="margin: 0cm 7.5pt 11.25pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #5e5e5e; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 11.5pt;"&gt;Essa acolhida, portanto, refletia o momento. E esse momento está no livro de Dicke: tempo de desencanto por um país que não era mais um mundão de porteiras abertas; de um sertão que não era mais sertão, tempo em que a arte vertia lágrimas de dilemas, e onde sexo e morte não se estranham, não se fronteirizam. Naquelas páginas o mito bíblico homicida, fraticida, reaparece nas figuras dos gêmeos Jônatas e Lázaro, contaminados pela inveja, pelo amor/desamor, que gera situações conflituosas. É o mito de Caim e Abel, que por sua vez é uma reinterpretação do mito babilônico de Dumizi e Emkidu, onde o ciúme é o propulsor dos conflitos entre os povos sedentários (agricultores) e nômades (pastores).&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="margin: 0cm 7.5pt 11.25pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #5e5e5e; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 11.5pt;"&gt;O livro é inteiramente varado por frases elegantes, estonteantes mas peca muitas vezes pelo que podemos intuir como exageros narrativos, citações constantes. Claro que não fogem do contexto, mas acabam por quebrar o ritmo da leitura. Creio que é o pecado de parte importante de escritores quando começam a&amp;nbsp;demonstrar erudição. Mas Dicke está perdoado, deve ser perdoado, porque no fundo, no fundo, nada disso que falo é importante, nada disso pode comprometer a sua escrita que é um alento, um sopro curativo, revigorante.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="margin: 0cm 7.5pt 11.25pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #5e5e5e; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 11.5pt;"&gt;E já que a LetraSelvagem teve a ousadia – que coisa magnífica – de trazer a público essa obra monumental de Dicke, esperemos que nos traga dele tudo aquilo que nos foi negado, ou seja, as obras que ficaram no esquecimento.&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="margin: 0cm 7.5pt 11.25pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #5e5e5e; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 11.5pt;"&gt;&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="margin: 0cm 7.5pt 11.25pt;"&gt;&lt;span style="color: #5e5e5e; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 11.5pt;"&gt;.&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="margin: 0cm 7.5pt 11.25pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1696221081602909999-4658323896267534056?l=luisavelima.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://luisavelima.blogspot.com/feeds/4658323896267534056/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://luisavelima.blogspot.com/2010/12/o-deus-de-todos-nos.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1696221081602909999/posts/default/4658323896267534056'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1696221081602909999/posts/default/4658323896267534056'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://luisavelima.blogspot.com/2010/12/o-deus-de-todos-nos.html' title='Deus de Caim, Ricardo Guilherme Dicke'/><author><name>Luis Avelima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14652451490301112811</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://4.bp.blogspot.com/_z3h_-f0vgz0/THgR0G-9rRI/AAAAAAAAACE/_Wi40mKv1sg/S220/66437_1236564366.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_z3h_-f0vgz0/TPj-HLamw0I/AAAAAAAAAEE/QrN3AElvOTo/s72-c/guilherme-dicke_2.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1696221081602909999.post-7060538973844631118</id><published>2010-11-01T19:31:00.000-07:00</published><updated>2010-11-01T19:31:26.189-07:00</updated><title type='text'>Carta a São Paulo</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Outro dia o meu amigo cantor Zé Luiz Mazziotti falava da saudade de uma São Paulo que não mais existe.&amp;nbsp;E puxou um coro de gente interessante, entre as quais Marilia Barbosa, a grande cantora e atriz. Pois bem, encontrei em meus guardados um artigo escrito por mim no já extinto jornal &lt;em&gt;Folha da Tarde&lt;/em&gt;,&amp;nbsp; em 8/05/1992, a pedido do amigo Wladyr Nader, que organizava a coluna, que contou com personalidades importantes escrevendo um texto para a cidade. Está aí o meu:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;A madrugada era fria e frios os olhares de teus edifícios envoltos pela garoa -- a garoa ainda fazia parte de tua poesia e nela os poetas arquejavam e tramavam seu canto de paixão e argamassa. E meu coraçãom paraibano mergulhava da poltrona quebrada do modernoso pau-de-arara para tua grandeza e indiferença. &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;A mala já pesava de saudade e angústia quando a mão amiga de Sadi Cabral -- o velho e querido Sadi -- veio em meu auxílio. Era Sadi quem me dava ciência dos olhares das fechaduras que rabiscavam a vida dos que passavam e pisavam duro em teu chão; com ele vaguei surpreso pelas surpresas de tuas esquinas, neguei às prostituas o amor pretendido e carregado de culpas, observei teus sobradões já carcomidos e ictéricos, transpirando bactérias doentias que o sereno dá e a fome cultiva. Ah, meus 17 anos...&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;Os primeiros anos foram duros, mas os sonhos nos ajudavam a seguir. O medo da grande cidade, Grande Cidade, se transformava numa alavanca que me levaria à militância comunista. Em teus porões conspiramos por uma vida melhor; penetramos teus labirintos em busca de homens para a nossa causa; cantamos teu dia-a-dia reascunhado em papéis amassados. E tu, São Paulo, te convertias num misto de amor e ódio. Foi então que, intrigados, acovardados, arrogantes, pobres coitados, outros homens chegaram desafivelando os cintos, apontando a metranca, engendrando novos mártires, afundando-te num beabá mal soletrado. Tutóia, tipóia do tumor, patamares da sanguinolência. Aqueles homens matando Vlado, amordaçando nossas palavras, campeando fantasmas em folhas brancas, torturando, impondo-nos a eterna paranóia. Palavras de manteiga passaram a cinzelar&amp;nbsp;os versos que para ti, São Paulo, compúnhamos. Eram estranhas tuas tardes de mofo, quando os homens celebravam mortes em incenso e castiçal.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;Os dias passaram, passamos nós pelos dias, tantos. Já a nuvem cinzenta era outra, ou meus olhos eram outros, sendo os mesmos. Tua paisagem cada vez mais desfigurada -- e meus olhos eram os mesmos, neon, bronze e cristais. O Tietê sucumbindo com nossos industriais dejetos, o Jaraguá desnudo já não sugerindo mistérios e a nuvem de fumaça escondendo os vagalumes que bem poderiam iluminar vidas. Houve vagalumes em São Paulo, não houve? Os homens, estes, aqueles, aqueloutros, brincando de suicídio com o revólver da sem-razão; a emoção&amp;nbsp;ditando nossos passos e a noite, um imenso cuspidor de fantasias. E a chuva.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;Hoje és torre de Babel, bordel, as retinas cansadas e os mesmos olhos. Nordestinamente doentias, as favelas são nódoas na colcha de retalhos da tua magnitude e parca magnanimidade; o humor dos cortiços canta&amp;nbsp;a miséria indefinida -- os homens-gabirus jamais deixaram teu lixo.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;Ah, São Paulo, qual a forma definida para se cantar a alma de uma cidade tuberculosa, teu rumor, os homens jamais te deixarão? Cantar os mendigos que tomam conta de tuas calçadas e fazem das marquises lares de poucas horas? Cantar esse amor-ódio-amor numa simples carta? Recurso falido, embora o uso do aplauso anônimo àqueles jeremias sem choro nem vela.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;Ah, São Pálida desperdício de ilusões e quimeras, de amores incompreendidos, de novos profetas de viaduto que rezam para descer o jesuscristinho numa romaria de róseos querubins, graça e&amp;nbsp; perdão,&amp;nbsp; desvario de camelôs em suas bugigangas de tantas terras para lá da paraíba, china, oropas, frança, bahias, vasto céu de organdi. &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;No telão está o aviso: ó poeta, canta outras maravilhas!&lt;/em&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1696221081602909999-7060538973844631118?l=luisavelima.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://luisavelima.blogspot.com/feeds/7060538973844631118/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://luisavelima.blogspot.com/2010/11/carta-sao-paulo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1696221081602909999/posts/default/7060538973844631118'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1696221081602909999/posts/default/7060538973844631118'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://luisavelima.blogspot.com/2010/11/carta-sao-paulo.html' title='Carta a São Paulo'/><author><name>Luis Avelima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14652451490301112811</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://4.bp.blogspot.com/_z3h_-f0vgz0/THgR0G-9rRI/AAAAAAAAACE/_Wi40mKv1sg/S220/66437_1236564366.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1696221081602909999.post-7642827797633115717</id><published>2010-10-04T09:43:00.000-07:00</published><updated>2010-10-06T06:55:06.000-07:00</updated><title type='text'>Relato de Prócula</title><content type='html'>&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0in 0pt; text-align: justify; text-indent: 0.5in;"&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_z3h_-f0vgz0/TKoFxCWPVJI/AAAAAAAAADk/-tqlWK7UvoA/s1600/Relato%2520de%2520procula.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="320" px="true" src="http://3.bp.blogspot.com/_z3h_-f0vgz0/TKoFxCWPVJI/AAAAAAAAADk/-tqlWK7UvoA/s320/Relato%2520de%2520procula.jpg" width="212" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language: PT-BR;"&gt;Há tempos um livro descansava em minha cabeceira. Aliás, uma pilha deles permanece intacta à espera do tempo que nunca consigo. Mas há poucos dias, terminada a tradução de &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;Gente Pobre&lt;/i&gt;, de Dostoievski, que tomou-me dias e dias, olhei para aquela capa magnífica e prometi que o livro seria minha próxima leitura: &lt;em&gt;Relato de Prócula&lt;/em&gt;, de W. J. Solha.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0in 0pt; text-align: justify; text-indent: 0.5in;"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language: PT-BR;"&gt;Conhecia o Solha de nome e imagem. Os conterrâneos me falavam de sua trajetória e eu retinha na memória o “bandido” de &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;O Salário da Morte&lt;/i&gt;, primeiro longa paraibano – guardo com carinho uma cópia -- onde atuava um amigo, Edson Borges e me fascinara.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0in 0pt; text-align: justify; text-indent: 0.5in;"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language: PT-BR;"&gt;&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;Embora soubesse de sua obra, infelizmente não havia lido uma sequer. E eis que nesses dias de eleição me pego lendo o seu &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;Relato de Prócula&lt;/i&gt;, lançado em 2009, que muito me entusiasma. E quando isso acontece é um problema, porque não consigo parar. E leio no ônibus, caminhando pelas ruas (às vezes esbarro com um poste) e até nos momentos que antecipam uma missa (pode?). Sim, fiquei mesmo entusiasmado, exultando por, finalmente, depois de um tempo, ter encontrado um autor que me proporcionasse esse estado de espírito. Logo eu, um cara&amp;nbsp;tão chato, que nem os confrades de União Brasileira de Escritores suportam&amp;nbsp;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0in 0pt; text-align: justify; text-indent: 0.5in;"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language: PT-BR;"&gt;Os temas, que a um primeiro momento, parecem ligados à religião, nunca me interessam. Levam-me sempre a achar que fazem parte da mesma tralharia da chamada auto-ajuda, das enganações do Paulo Coelho, dos relatos psicografados (recentemente havia lido um texto “psicografado” de Claudia Prócula, onde fala de seus amores por Pilatos e de sua veneração pelo Nazareno.), mas ledo engano:&amp;nbsp;&lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt; Relato de Prócula&lt;/i&gt; que tenho em mãos, desse sudernordestino magnífico, foge a qualquer dessas&amp;nbsp;suposições -- às vezes infelizes. É um livro sofisticado, bem escrito que, embora destile certa erudição, nos remete a um mundo dificilmente imaginado por quem vive além fronteiras paraibanas, distante daquele recanto sabido e tido como árido, sofrível, inculto. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0in 0pt; text-align: justify; text-indent: 0.5in;"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language: PT-BR;"&gt;Ajudando-nos a desalinhavar o que estamos habituados a engolir – a narrativa sempre linear, blábláblá... --, Solha historia história e estórias, desarma aratacas bíblicas e nos faz sentir formigamentos a partir de uma carta que sugere o Nazareno como uma invenção romana para evitar a oposição judia ao regime estabelecido.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0in 0pt; text-align: justify; text-indent: 0.5in;"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language: PT-BR;"&gt;O pilar da erudição está num sacerdote cuja vida é marcada por altos e baixos, despudores, desamores, ressurreições, pecados e que, após participar de um auto onde interpreta Poncio Pilatos, tem a epifania: descobre o tão propalado período de silêncio de Jesus. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0in 0pt; text-align: justify; text-indent: 0.5in;"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language: PT-BR;"&gt;Há uma relação de personagens interessantes (ele, o padre, é apaixonante)&amp;nbsp;excitantes, um descambar poético de falas e imagens que atestam a boa veia do autor, um desfilar de nomes reais numa constante ida e vinda de realidade e ficção.&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0in 0pt; text-align: justify; text-indent: 0.5in;"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language: PT-BR;"&gt;Num determinado momento da leitura questiono-me: como um homem com sua cultura (o padre Martinho Lutero) se abate com essa “descoberta ingrata”&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;e chega ao cúmulo do suicídio? Poderia apenas dar de ombros, seguir em frente com sua interpretação.&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;Mas aí está a genialidade do autor, fazendo com que o enredo não perca sua razão de surpreender,&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;de acentuar o mistério, de ser dramatúrgico mesmo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0in 0pt; text-align: justify; text-indent: 0.5in;"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language: PT-BR;"&gt;Bom, Schopenhauer dizia que quando lemos somos dispensados em grande parte do trabalho de pensar, de raciocinar, porque, quando lemos a nossa cabeça não passa de uma arena de pensamentos alheios. Seria isso, padre Martinho Lurtero?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0in 0pt; text-align: justify; text-indent: 0.5in;"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language: PT-BR;"&gt;Mas, bobagens à parte – desacostumei das resenhas --, quero alertar o leitor: procure imediatamente conhecer este &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;Relato de Prócula&lt;/i&gt;, que é livro para se guardar ao lado do que há de melhor na literatura universal. &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;É bem escrito, atiça, incomoda, revela. Principalmente revela (para mim) o grande escritor que é W.J.Solha.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0in 0pt; text-align: justify; text-indent: 0.5in;"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language: PT-BR;"&gt;Era apenas um breve comentário. &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1696221081602909999-7642827797633115717?l=luisavelima.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://luisavelima.blogspot.com/feeds/7642827797633115717/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://luisavelima.blogspot.com/2010/10/o-relato-de-procula.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1696221081602909999/posts/default/7642827797633115717'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1696221081602909999/posts/default/7642827797633115717'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://luisavelima.blogspot.com/2010/10/o-relato-de-procula.html' title='Relato de Prócula'/><author><name>Luis Avelima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14652451490301112811</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://4.bp.blogspot.com/_z3h_-f0vgz0/THgR0G-9rRI/AAAAAAAAACE/_Wi40mKv1sg/S220/66437_1236564366.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_z3h_-f0vgz0/TKoFxCWPVJI/AAAAAAAAADk/-tqlWK7UvoA/s72-c/Relato%2520de%2520procula.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1696221081602909999.post-1568061819403806137</id><published>2010-10-02T11:50:00.000-07:00</published><updated>2010-10-04T17:38:59.250-07:00</updated><title type='text'>Quando é besteira sonhar</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_z3h_-f0vgz0/TKePDVwj-bI/AAAAAAAAADg/zMylsL3tcKA/s1600/Car3.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="235" px="true" src="http://1.bp.blogspot.com/_z3h_-f0vgz0/TKePDVwj-bI/AAAAAAAAADg/zMylsL3tcKA/s320/Car3.jpg" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;Em 1980 fui convidado a escrever a trajetória de nordestinos em busca da cidade grande. Trinta anos depois a matéria está aqui. Para relembrar (a foto é daquele momento)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;O sol que desce sobre a cidade penetra na pele. Brilham os telhados de lata. Olhares me perseguem na plataforma enjoada: são mendigos e ciganos os que partem, os que ficam, os que choram à janela do ônibus com as mãos em apertos recíprocos. Tudo me constrange porque não tenho ninguém para chorar ou saudade alguma para sentir.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;Espremo-me no balcão de um bar imundo e disputo espaço com as moscas e abelhas que se afundam no açúcar espalhado pelo chão. Tomo um café requentado e busco conversa. Observo rostos e falas. Um homem diz que perdeu tudo e que precisa fugir do lugar,&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;que&lt;/span&gt; é duro suportar o sofrimento de ter que deixar mulher, filhos, ainda que reste a palavra de homem de que logo voltará para buscá-los. Esse homem de 30 anos, roupa cáqui e cinco filhos tem olhos de cinqüenta, pele de sessenta, mãos calejadas, uma úlcera aberta no tornozelo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;A calçada engordurada e esburacada suporta o equilíbrio de centenas de pés trêmulos. A emoção no ar e a espera pela saída do modernoso pau-de-arara.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoListBullet2" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; mso-list: none; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;-- Olha, moço, estamos cansados de oração, tantas léguas andadas, tanto calado lacrado aqui dentro da gente. A reza não dá jeito, a penúria não tem solução. Amanhã melhora, amanhã melhora, mas esse amanhã nunca chega. É igualzinho ao canto da carimbamba que a música entoa. Estou indo com a família, carregado de tristeza e de saudade. Tenho um irmão em Jacareí que trabalha &lt;personname productid="em olaria. Eu" w:st="on"&gt;em olaria. Eu&lt;/personname&gt; sempre vivi na plantação, trabalhando no eito, de sol a sol. De uns anos para cá, perdi tudo e quase fico sem a terra que meu pai me deixou -- que Deus o tenha em bom lugar!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;Esse Sebastião tem 40 anos, é proprietário de quatro alqueires de terras em Aroeiras, região do cariri paraibano. Plantava algodão e feijão. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;Ainda encostado no barzinho da estação, espero a arrumação das bagagens e a conferência dos passageiros. Trinta e seis retirantes farão desse ônibus seu novo lar.&amp;nbsp; Ao olhar para trás vejo acenos e lágrimas.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoListBullet2" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; mso-list: none; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;-- Escreve logo, por favor! &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoListBullet2" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; mso-list: none; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;-- Cuidado com as crianças!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoListBullet2" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; mso-list: none; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;-- Vão com Deus, Maria e José!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;O ônibus deixa a estação e trafega pelas ruas movimentadas de Campina Grande. Em pouco tempo a zona rural se apresentará com sua paisagem de pedras, a caatinga, o sertão.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;Rostos sorridentes, rostos chorosos, a cidade ficando para trás, o ônibus ganhando estrada e os prédios se perdendo na linha do horizonte. Os olhos embaçados, o peito trancado, a garganta dando nó. Ajeito-me como posso.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;E o ônibus rodando, comendo estrada, passando pela vermelhidão dos campos, pedras multiformes endurecendo o caminho, levas de retirantes, caminhões e cargas, emoção. O céu azulando e o chão seco e o chão seco, e as plantas pedindo água, e cacto, cacto, cacto. O ônibus rodando pela estrada que nos leva para o sul, uma linha comprida, infinita. Arbustos de verde fosco, cercas de arames enferrujados, montanhas, o gado faminto, o gado magro, o gado caveira, o gado carcaça. Gado e gente.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;O menino diz que está com fome. Tem oito anos e parece esperto. Olhinhos apertados de menino arteiro. Passeia pelo corredor do ônibus, mexe com as pessoas e nem se dá conta do destino das tantas horas a serem percorridas. Quando crescer e for aquele “baita homão”, vai ser “piloto daquele avião que passa todo meio-dia em cima da casa da gente”.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;O carro sem parar, desembestado no meio do mundo. E o vento entrando pelas janelas, dançando, secando as lágrimas que ainda restam em alguns olhos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;A paisagem mudando. Ora um imenso tabuleiro de veludo, canaviais; ora uma imensa chapada seca e careca.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;Toritama é uma pequena cidade pernambucana às margens do rio Capibaribe, cantada por João Cabral, o poeta. O rio é quase nada. Nas poucas poças, as mulheres de seios à&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;mostra, fazem festa. Coxas roliças &lt;personname productid="em movimento. Lavadeiras" w:st="on"&gt;em movimento. Lavadeiras&lt;/personname&gt; que ficam para trás com sua mentira de água.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoListBullet2" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; mso-list: none; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;E novamente a caatinga, terras vermelhas, nenhuma alma vivente.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoListBullet2" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; mso-list: none; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;-- Olha ali, moço, um homem de pedra!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoListBullet2" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; mso-list: none; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;-- É Lampião, meu filho!, responde o motorista Dorival.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;Dorival tem o aspecto bem cuidado, unhas feitas, uniforme impecável. Guiará nosso destino até Maceió. Tem bom papo. É tabelado na vida. Nem sabe dizer ao certo quantas viagens realizou. Em cada uma delas uma lembrança, uma tristeza calada, um jeito sem jeito que dar. É contra as idas e vindas do pessoal. Conhece um rapaz de Guarabira que já viajou umas quarenta vezes pro sul. Passa um mês e volta. Está para conhecer um que tenha se dado bem. Dirige com atenção. Fuma muito, mas não bebe. Amanhã mesmo estará de volta a Campina Grande.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;Anoitece. Percorremos as terras que divisam os estados de Pernambuco e Alagoas. A maioria dos passageiros está calada. As mães ajeitam os filhotes como podem. O motorista avisa que teremos uma parada para o jantar. Dorival será rendido, segundo o jargão que os motoristas usam.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;O lugar da parada fica nas cercanias de Maceió. Um vento frio vasculha a alma, traspassa os vidros das janelas, umedece o coração. A lua arrogante brilha no céu. Parados, observamos o eterno trafegar de faróis que encandeiam.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoListBullet2" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; mso-list: none; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;-- Moço, um cheesburguer.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoListBullet2" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; mso-list: none; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;-- Um o quê?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoListBullet2" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; mso-list: none; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;-- Um cheesburguer.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoListBullet2" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; mso-list: none; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;-- Isso aí não tem não, senhor.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;Percebo minha ignorância. Nas prateleiras, bolinhos de carne endurecidos de banha. Moscas em festa na disputa do pouso.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoListBullet2" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; mso-list: none; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;-- Um refrigerante.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoListBullet2" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; mso-list: none; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;-- Vai do quê?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoListBullet2" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; mso-list: none; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;-- Uma Coca-cola.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoListBullet2" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; mso-list: none; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;-- Tá &lt;personname productid="em falta. S�" w:st="on"&gt;em falta. Só&lt;/personname&gt; tem Mirinda.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;Olhares desconfiados espiam aquelas prateleiras. O bar é uma espelunca. A sujeita eleva-se com o cheiro de carne dormida.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 12.0pt;"&gt;* * *&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;A viagem recomeça. Muitos nem comeram, ficaram na ração, não se pode gastar com tolices, qualquer coisa engana a barriga. Leite para as crianças e só.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;A lua vai acompanhando a trajetória do ônibus. Há silêncio, as crianças dormem, sonham o sonho dos justos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoListBullet2" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; mso-list: none; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;-- Já passou o São Francisco?&lt;span style="mso-tab-count: 1;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoListBullet2" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; mso-list: none; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;-- Não. Ainda tem muito chão.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoListBullet2" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; mso-list: none; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;-- E essa água?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoListBullet2" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; mso-list: none; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;-- É o rio Sergipe.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;Israel é um jovem de 19 anos. Guarda consigo um olhar amargo. Jamais saiu de Matinhas, distrito de Alagoa Nova. Não tem idade para lembrar de mim. Desde pequeno tem vontade de viajar. Trabalhou na enxada noite e dia, já desfibrou muito agave. As marcas estão nas mãos. Uma hora decidiu e resolveu seguir o coração. Vai para São Paulo tentar a sorte, ainda que não conheça ninguém por lá. Tem alguns amigos, é verdade, mas lhe faltam os endereços. Parte deixando saudades. Duas: a mãe e Joana, sua namorada. Pode ser que volte daqui há dois anos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;O rio Sergipe corre mansamente, com suas rãs entoando o canto noturno das águas que vão em busca do mar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;É tarde. Durmo um pouco, mas acordo com o tumulto dos passageiros. Vai se aproximando o rio São Francisco.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;Atravessamos o velho Chico, cansado de tanta água, de tanta guerra, numa escuridão medonha. A curiosidade dos passageiros é tamanha que o motorista não se faz de rogado e para para que todos o vejam. Coqueiros balançam, dançam e cantam com o vento madrugador, e as águas seguindo para o mar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 12.0pt;"&gt;* * *&lt;span style="mso-tab-count: 2;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;No segundo dia de viagem amanhece chuvoso. A Bahia diante de nós. Parada para o café que tem gosto de vinagre. O céu é escuro, cinzento e a tristeza&amp;nbsp;nos olhos encardidos dos passageiros. Diante do restaurante as poças de lama acatam moscas famintas. Há frio, cheiro de cocô, mijo e carne podre, e as portas do céu cada vez mais trancadas. O ônibus parece o mais sujo de todos os chiqueiros do mundo. Começa o festival do choro:&amp;nbsp;as crianças já sentem o peso da viagem. Enquanto isso, fico a me perguntar quanta ilusão não comporta o coração desses infelizes. Pensa-se em tudo e &lt;personname productid="em nada. E" w:st="on"&gt;em nada. E&lt;/personname&gt; o carro rodando, perfurando o vento, descobrindo novas paisagens, se aproximando cada vez mais da ilusão final.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoListBullet2" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; mso-list: none; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;-- Quanto custa a bolsa, senhor?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoListBullet2" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; mso-list: none; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;-- Cem cruzeiros, porque é pra moça bonita.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoListBullet2" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; mso-list: none; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;-- Embrulha uma.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;Maria José tem 16 anos e acompanha a mãe que vai se submeter a uma cirurgia. O médico falou que é coisa delicada, que na Paraíba não tem condições de cura. Diz que a bolsa servirá para juntar dinheiro na cidade grande. Percebo a ilusão enquanto Josué brinca. É um bonito rapaz, mas de mãos que denunciam sua luta diária. Diz que brinca para enganar a saudade.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;O que é mesmo a saudade? Afastar-se da nesga de terra onde nasceu, cresceu e sofreu? Josué me fala de sua família numerosa, dos amanheceres cotidianos, do peso da enxada, mas também da alegria do convívio, da união na dor e no sofrimento.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;Sua conversa me chega como um vídeo. Rememoro &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;Vidas Secas&lt;/i&gt;, a busca do homem por melhores dias, a tristeza dos olhares das crianças que não conseguem entender a penúria mas acabam convivendo com a dureza da terra:&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;nenhuma diferença entre homem o gado. Gado e gente a padecer da mesma forma.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 12.0pt;"&gt;&lt;span style="mso-tab-count: 2;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 12.0pt;"&gt;* * *&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;Estamos em Feira de Santana, diante de um restaurante que se torna um formigueiro humano. Na calçada as ciganas fazem roda, querem ler o destino que está pregado na palma da mão das pessoas. Ostentam, de cara, uma pobreza de Jó e sua riqueza parece ser mesmo a esperteza.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoListBullet2" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; mso-list: none; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;-- Cuidado com elas, Maria. São umas trambiqueiras. Segura a bolsa!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoListContinue2" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;E elas esconjuram o garoto brincalhão.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;Saímos de Feira sob um calor abrasador. O ônibus foi limpado, o que nos dá mais ânimo. À frente, divisamos um pasto onde se amontoam restos de animais, imagens da seca.&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;E seguimos engolindo o asfalto decadente da Rio-Bahia, o carro embalado, o povo enfadado, o corpo quebrado, as caras de dó. Nas ribanceiras o bananal seco, estéreo; na estrada crianças exibem jibóias. Quem compra cobra?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;O verde aparece, as serras ostentam imponência, vestidas como estão de azul arroxeado. Uma pergunta: e a seca para onde foi?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;-- Lá pros lados de Olivedos havia muita fartura, muita segurança espalhada pelo tempo. De repente, como uma praga, tudo secou. E secou tudo: esperança, vontade, gosto... Dava dó, a penúria chegando, os animais morrendo, a terra rachando, o massapé secando, as pessoas brigando com os bichos, disputando com os bichos, lutando por palma, macambira e facheiro. E as aves voando, fugindo; os imbuás se escondendo, a terra ardendo. Só as cobras se arrastando pelos serrotes, com a pele caindo. A gente só via o tempo com ar de fumaça. Ô eito desgraçado!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;Firmino conta que já descamba nos trinta e&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;é solteiro, que vai à procura do irmão. Não tem endereço, sabe apenas que mora na Vila Formosa.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoListBullet2" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; mso-list: none; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;-- Quem tem boca vai a Roma. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoListBullet2" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; mso-list: none; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;Sim, quem tem boa vaia Roma&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;Já Nicácio tem boas lembranças, parece instruído e é com ele que tento a conversa mais séria. Cursou o ginasial e simpatizou com o partido comunista, mas teve receios.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoListBullet2" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; mso-list: none; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;-- Em 1970 o presidente da República falou em tom emocionado que não se conformava com o sofrimento nordestino e que as coisas tinham que mudar, mas ele não sabia que o nosso chão estava contaminado com a esquistossomose, que havia mortalidade infantil além da conta, que havia desnutrição. Mais que tudo, não se importou com a má distribuição de terras. Nenhum deles.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;Nicácio me leva ao passado, me traz de volta a luta das agitadas ligas camponesas, os teóricos da reforma agrária, os futurólogos, Nêgo Fuba, um dos primeiros mártires do movimento agrário em terras paraibanas.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;A angústia parece me vigiar. Fixo os olhos na distância e escuto o eco esganiçado das filhas das caatingas. Cigarras?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;A região seca novamente. Tudo desolado. Mato, só mato. Nada além. Acaso amanhece cinzento é intenção de chuva, mas as nuvens não enganam mais, e o vento, nada camarada, a carregá-las para longe.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;Absorto nos pensamentos, demoro para ver que ao meu lado uma criança cobiça meu chocolate. Dou-lhe. De seu nariz, laivos de catarro verde-escuro escorrem sem parar. Barriga grande, pernas finas, cabeça de balaio. Chama-se Laurentino, atende por Lino. Não sabe para onde vai.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoListBullet2" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; mso-list: none; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;-- Um lugar lá longe, que minha mãe diz ter muita comida, muito carrinho de lata. Vou ficar sem graça, não tem o Tinhoso pra brincar. É meu cachorro, sabe? Mãe diz que ele não quis vim com a gente, ficou com a vó Maria.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;No fundo do carro um grupo de rapazes conversa. Eles riem, contam anedotas, tempos de fartura, o engenho, o bangüê, a casa de farinha, estórias que seus pais contavam, onças bravas, mulas-sem-cabeça, o ronco do primeiro avião que rasgou os céus nordestinos:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoListBullet2" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; mso-list: none; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;-- Diz que uma barulheira danada se aproximava e todos corriam, choravam, se escondiam dizendo que era o fim do mundo, que os anjos não tardavam com suas trombetas de fogo desenhando no céu a perdição dos dias; as mulheres a confessar a seus maridos as traições praticadas, ladrões a penitenciar-se e o ronco danado no meio do mundo. Era apenas um avião.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;Inácio Ventura tem muitas estórias desse tipo. Estudou até o terceiro ginasial. tem consciência das dificuldades do país. Conversamos longamente. Separou-se da mulher, não tem filhos, não corre da seca. Mora no brejo e e o que se pode chamar de politiqueiro. Acha que o Nordeste só recebe ajuda governamental via televisão, porque longe do vídeo está jogado às traças.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;Nos confins da Bahia, a surpresa: chove, mas é uma chuvinha somente, como dizem os mais velhos, que molha pouco embora dê pra encher o pote.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;Jequié é excomungada do mapa pelos preços exorbitantes. O pessoal da região também vive da miséria dos que por ali passam à procura de vida.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;Na porta do restaurante há uma disputa ferrenha por fregueses. Vinte minutos são suficientes para esticarmos o corpo, sem necessariamente enchermos a barriga. A maioria se farta de laranja e banana. Um banho rápido por quarenta cruzeiros, e o medo de “pegar doença ruim”.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 12.0pt;"&gt;&lt;span style="mso-tab-count: 2;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 12.0pt;"&gt;* * *&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;É tarde e o sol ainda alto; os rapazes se distanciam da solidão, fogem às lembranças, sorriem falsamente amarelo. A vontade de chegar já se evidencia.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoListBullet2" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; mso-list: none; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;-- Não gosto dessa gente que anda com esse trambolho (o gravador) debaixo do braço, arremedando a gente. Pode-se dizer besteira e não tem jeito de negar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;Matias não gosta do gravador. Não vai com a minha cara, é evidente. Tem 25 anos e certa vez foi envolvido em questões de terra, ludibriado por um gravador, segundo ele. Os demais não me questionam. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;Minas Gerais se aproxima e tem uma paisagem decadente, diferente, praticamente despovoada. A noite mostra um céu carrancudo, os vaga-lumes piscam. É difícil não sentir saudades de uma cama quentinha. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;A senhora que viaja ao meu lado não pregou os olhos desde o início da viagem. Como consegue?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoListBullet2" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; mso-list: none; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;-- Meu filho, tô indo pra São Paulo fazer um tratamento médico. Vou voltar logo, não posso deixar meu velho sozinho. Coitado, ficou chorando muito quando parti. Não posso dormir, pus na cabeça que a qualquer momento o ônibus vira e&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;morro sem ver.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 12.0pt;"&gt;* * *&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;Teófilo Otoni é parada obrigatória. Um monte de desajustados pede comida Volta a lembrança do Nordeste. Os passageiros não entendem, talvez por que nunca tenham imaginado que por aqui existam mendigos. A plataforma de desembarque é suja, a lanchonete nunca foi varrida, pois há lixo por todos os quadrantes.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;Quando a nova noite chega a lua some e o ônibus perambula ensaiando ziguezagues, tenta se livrar das depressões. O tacógrafo frequentemente registra,&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;com seu alarme, a ultrapassagem dos &lt;metricconverter productid="80 km" w:st="on"&gt;80 km&lt;/metricconverter&gt;. Waldick Soriano canta no radinho de pilha do casal em lua-de-mel. Entristece a noite com seus gemidos de macho traído.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;A cidade de Realeza aparece e é fria demais. Àquela hora a estrada é calma, as jamantas dormem nos beirais do asfalto. Logo mais o tráfego se intensificará. As crianças dormem. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;Quando amanhece estamos &lt;personname productid="em Além Paraíba" w:st="on"&gt;em Além Paraíba&lt;/personname&gt; e paramos para o café. Armados de escovas empastadas e toalhas ao ombro, os passageiros comprimem-se no banheiro mal cuidado do restaurante. O Nordeste já foi esquecido, esquecidas a fome, a seca, a família. Foi há cem anos que partiram? &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="BodyText2" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;O rio Paraíba requebra docemente pelos vales. São Paulo se aproxima.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoListBullet2" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; mso-list: none; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;-- Já passou Aparecida?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoListContinue2" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;Em Guaratinguetá o almoço no restaurante 3 Garças. Faz calor. Tomo cerveja e penso se voltarei a fazer uma viagem assim, cheia de emoção e atropelos. Conseguirei exprimir tudo isso num papel? Quando e onde&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;encontrarei gente tão gente como essa com quem tenho partilhado tantas horas? Quando deles viverão ou&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;voltarão? E eu?&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;Avistamos Guarulhos e já sentimos a poluição a se espalhar, manchando o ar. Os passageiros se acotovelam. A Dutra é um verdadeiro inferno, tem uma revolução de automóveis. São Paulo à distância é apenas uma nuvem cinzenta com uns poucos edifícios a perfurá-la. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;***&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;As ruas movimentadas da cidade, com seus prédios estranhos, seu trânsito infernal, suas procissões de pedestres. O ônibus para na Rodoviária do Glicério: 30 de junho de 1980. Mal consigo levantar-me. A maioria desce, procura seus objetos, tonto estão todos com aquele batalhão de motoristas a oferecer táxi.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;Desço. Despeço-me de alguns. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;-- Quando sai escrito isso que você gravou?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;-- Não sei, respondo. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;Olho pro céu. Não o vejo, pois o viaduto o encobre. Sei que faz sol. Pego minha bagagem e saio &lt;personname productid="em pressa. Do" w:st="on"&gt;em pressa. Do&lt;/personname&gt; outro lado, um amontoado de gente que&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;volta para suas terras.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;À saída observo uma senhora jovem, três filhos, encostada numa das vigas de cimento da rodoviária.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoListBullet2" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; mso-list: none; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;-- Deu tudo errado, moço. Quero voltar e não tenho como. Fui largada pelo marido e o único jeito é bater na porta do meu pai. A moça da assistência tá resolvendo o caso, foi besteira ter sonhado alto demais.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;Ela quer voltar, desencantou-se com o Eldorado.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="BodyText2" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt; line-height: 150%; mso-bidi-font-size: 10.0pt;"&gt;Sacudo a poeira. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoListBullet2" style="line-height: 150%; margin: 3pt 0cm 0pt; mso-list: none; text-align: justify; text-indent: 42.55pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1696221081602909999-1568061819403806137?l=luisavelima.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://luisavelima.blogspot.com/feeds/1568061819403806137/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://luisavelima.blogspot.com/2010/10/quando-e-besteira-sonhar.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1696221081602909999/posts/default/1568061819403806137'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1696221081602909999/posts/default/1568061819403806137'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://luisavelima.blogspot.com/2010/10/quando-e-besteira-sonhar.html' title='Quando é besteira sonhar'/><author><name>Luis Avelima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14652451490301112811</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://4.bp.blogspot.com/_z3h_-f0vgz0/THgR0G-9rRI/AAAAAAAAACE/_Wi40mKv1sg/S220/66437_1236564366.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_z3h_-f0vgz0/TKePDVwj-bI/AAAAAAAAADg/zMylsL3tcKA/s72-c/Car3.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1696221081602909999.post-6034622790664060615</id><published>2010-09-30T11:55:00.000-07:00</published><updated>2010-10-02T09:02:42.956-07:00</updated><title type='text'>Em defesa do artista</title><content type='html'>&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0in 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_z3h_-f0vgz0/TKdXk1v5L9I/AAAAAAAAADc/kC3A8m9tI0Y/s1600/carmalia-frente-500x498.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="318" px="true" src="http://2.bp.blogspot.com/_z3h_-f0vgz0/TKdXk1v5L9I/AAAAAAAAADc/kC3A8m9tI0Y/s320/carmalia-frente-500x498.jpg" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0in 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language: PT-BR;"&gt;Um dia Marisa Gata Mansa contou-me, entristecida, de uma passagem sua na Secretaria de Cultura do Rio de Janeiro. Depois de sair, milagrosamente, de um longo período de enfermidade, resolveu fazer o que sabia -- cantar -- e procurar os meios que poderiam lhe dar respaldo. Na Secretaria foi atendida por um garotão que disse: “a senhora deixe um currículo que o examinaremos”. Bah, o idiota, atuando na Secretaria de Cultura de uma cidade como o Rio de Janeiro, que sempre quis ser a Capital Cultural do país, desconhecia o nome de Marisa e sua trajetória na música brasileira! Uma piada!&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0in 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language: PT-BR;"&gt;Quando me contava isso, seus olhos enchiam-se de lágrimas, até porque não entendia tanto descaso, não aceitava esses assassinatos em vida de tantos outros artistas.&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0in 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language: PT-BR;"&gt;O episódio é relembrando aqui, porque fui surpreendido recentemente com a notícia de que Carmélia Alves teria ido para o Retiro dos Artistas, no Rio de Janeiro.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0in 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language: PT-BR;"&gt;Conversei com Cervantes, velho amigo -- meu e dela. Sim, era verdade. Sem condições de arcar com as despesas do apartamento alugado em Copacabana, não teve outra opção. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0in 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language: PT-BR;"&gt;Como Carmélia, outros tantos artistas penam com o descaso. Público e Particular. Alguns nomes conhecidos já partiram dessa sem que nem&amp;nbsp;mesmo a imprensa noticiasse. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0in 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;personname productid="Em São Paulo" w:st="on"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language: PT-BR;"&gt;Em São Paulo&lt;/span&gt;&lt;/personname&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language: PT-BR;"&gt; um desses sabichões que vivem para se apossar do que não lhe pertence, deixou os artistas de São Paulo sem sua Casa, o que existe hoje é uma rua com o nome de “Casa do Ator”. Ironia.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0in 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language: PT-BR;"&gt;Isso será sempre assim. Os políticos estão mais preocupados com suas questões pessoais ou em colocar seus nomes em placas do que oferecer qualquer ajuda no sentido de preservação da memória nacional. Eles nem sabem do que se trata. E o sei por experiência própria, dado que tive oportunidade de discutir com vários deles.&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0in 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language: PT-BR;"&gt;Quando dirigi os eventos na cidade de São Paulo criei -- sem que houvesse interferência de gabinetes -- um espaço musical onde vários dos nomes esquecidos puderam se apresentar, entre os quais Moreira da Silva, Ademilde Fonseca, Emilinha Borba, a própria Marisa Gata Mansa. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0in 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language: PT-BR;"&gt;O que fazer hoje em dia? Esperar que apareça uma Carmem Costa e insista na decisão de requerer o seu tombamento? Pena que no Brasil tombamento signifique derrocada, queda. Sim, tombar no Brasil é derrubar, literalmente.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0in 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language: PT-BR;"&gt;Creio que agora&amp;nbsp;é o momento de nos juntarmos e requerermos o tombamento (com direito a uma boa pensão) de nomes como Carmélia Alves, Carminha Mascarenhas, apenas para lembrar de duas grandes cantoras que estão no esquecimento. Quem topa?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0in 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language: PT-BR;"&gt;&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0in 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language: PT-BR;"&gt;&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0in 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0in 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0in 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1696221081602909999-6034622790664060615?l=luisavelima.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://luisavelima.blogspot.com/feeds/6034622790664060615/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://luisavelima.blogspot.com/2010/09/em-defesa-do-artista.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1696221081602909999/posts/default/6034622790664060615'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1696221081602909999/posts/default/6034622790664060615'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://luisavelima.blogspot.com/2010/09/em-defesa-do-artista.html' title='Em defesa do artista'/><author><name>Luis Avelima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14652451490301112811</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://4.bp.blogspot.com/_z3h_-f0vgz0/THgR0G-9rRI/AAAAAAAAACE/_Wi40mKv1sg/S220/66437_1236564366.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_z3h_-f0vgz0/TKdXk1v5L9I/AAAAAAAAADc/kC3A8m9tI0Y/s72-c/carmalia-frente-500x498.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1696221081602909999.post-4821639663934740281</id><published>2010-09-30T11:54:00.000-07:00</published><updated>2010-09-30T18:35:53.343-07:00</updated><title type='text'>Fidel, os golfinhos e a “kremlinologia intestinal”</title><content type='html'>&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0in 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language: PT-BR;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0in 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language: PT-BR;"&gt;O americano Jeffrey Goldberg foi convidado por Fidel Castro para um dedo de prosa. E publica uma fala do que ele considera como “o mais extremo dos momentos” em que esteve na companhia do velho líder cubano: “O modelo cubano não funciona mais, nem mesmo para nós”. O mundo leu e&amp;nbsp;acabou exclamando um “oh” de surpresa. Mas teria Fidel dito tal frase? E tem mais: ao pedir explicações a uma colega sobre a declaração ouvida, lá vem a patacoada: “Fidel está começando a se reinventar como estadista veterano”.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0in 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0in 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language: PT-BR;"&gt;Parece que a coisa não foi mesmo assim, tanto que o próprio cubano andou chuleando as mal alinhavadas frases do repórter.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0in 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0in 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language: PT-BR;"&gt;Uma pena. E há que perguntar: como é que um sujeito tem uma oportunidade de ouro dessas&amp;nbsp;e a deixa escapar? &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;Como é que um sujeito desses&amp;nbsp;afirma que seu interesse inicial num almoço era ver Fidel comer e fazer uma “kremlinologia intestinal”? (sic). &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0in 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0in 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language: PT-BR;"&gt;Aquele “entrevistado" não parece muito com Fidel, não pode ser o mesmo Fidel que conheci nos idos dos 80 e tornei a ver em algumas oportunidades outras.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0in 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0in 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language: PT-BR;"&gt;Fidel agora se preocupa com shows de golfinhos? &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language: PT-BR;"&gt;Que pena, mesmo! Jeffrey Goldberg perdeu a chance de fazer uma das mais importantes matérias do século. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0in 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1696221081602909999-4821639663934740281?l=luisavelima.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://luisavelima.blogspot.com/feeds/4821639663934740281/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://luisavelima.blogspot.com/2010/09/fidel-os-golfinhos-e-kremlinologia.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1696221081602909999/posts/default/4821639663934740281'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1696221081602909999/posts/default/4821639663934740281'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://luisavelima.blogspot.com/2010/09/fidel-os-golfinhos-e-kremlinologia.html' title='Fidel, os golfinhos e a “kremlinologia intestinal”'/><author><name>Luis Avelima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14652451490301112811</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://4.bp.blogspot.com/_z3h_-f0vgz0/THgR0G-9rRI/AAAAAAAAACE/_Wi40mKv1sg/S220/66437_1236564366.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1696221081602909999.post-2121238021152966921</id><published>2010-09-26T09:32:00.000-07:00</published><updated>2010-09-26T12:17:00.050-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: AGaramond;"&gt;Trecho do livro de Memória&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: AGaramond;"&gt;(...) Alguém me diz que Alagoa Nova não existe, que é o quintal de Campina Grande. Bah! Uma pena que os orgulhos regionais meçam todas as sombras estranhas pela mesma rasa, alegando que enquanto Campina Grande é um desaforo capitalista, uma afronta, Alagoa Nova não passa de um discreto padrão provinciano, sem eira nem beira. Pode ser, mas é onde se encontra a calma que está na janela onde alguém mastiga demoradamente uma batata assada; no calçadão da igreja, onde o eu poeta meditava e observava as barreiras avermelhadas do Balanço; na sombra do banco onde a velha explica ao menino o teor do catecismo; no olhar da menina que conversa com sua boneca de pano; em todas as pessoas repetidamente alheias ao tempo, porque sabem que o tempo continuará a passar, paulatina e inexoravelmente, e é a ele que as pessoas devem estar atentas. Pessoas sem pressa para assistir à vida, porque a vida está lá, embora até nem saibam. Mas isso se aprende, o tempo ensina. Por isso é que não se deve correr. É preciso que cada um carregue sua bagagem e, dentro dela, a herança dos seus antepassados. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: AGaramond;"&gt;Alagoa Nova existe, sim. Não é um mero quintal. Uma hora, quando menos esperarmos, se abrirá ao progresso sem perder a calma. Cada um se orgulhará de ser um cidadão alagoanovense, de viver uma vida moderna e praticamente rural. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: AGaramond;"&gt;Isso pode parecer sem sentido dentro do movimento frenético de hoje. Fará mesmo algum sentido? Haverá calma em algum lugar? Certamente não somos chineses, taoístas, para exercermos em silêncio a forma tradicional de movimentos lentos do corpo que convidam à meditação enquanto ajudam a sua elasticidade. Somos alagoanovenses, paraibanos, brasileiros. Mais que tudo, alagoanovenses. Na cara e na coragem, na sorte e na vida. Por isso calados, distantes, meio estrangeiros, aruás do brejo, como me apelidaram um dia.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: left;"&gt;&lt;span style="font-family: AGaramond;"&gt;&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: left;"&gt;&lt;span style="font-family: AGaramond;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: AGaramond;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: AGaramond;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: AGaramond;"&gt;Estamos em junho do ano 2001, sexta-feira, 1°. Faz tempo que penso em escrever sobre Alagoa Nova. Já imaginei dia, mês, mas na mão direita parece ter um esporão fincado que me impede fazê-lo. Mas decidi: embora doa, devo fazê-lo, até porque o relato acabará compondo uma trajetória de vida, com marcas que por pouco não foram lavadas ou levadas na última enxurrada do Mamanguape, aquela que não houve e nem sei se haverá. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: AGaramond;"&gt;Logo cedo esbocei reações de amor à cidade natal. Recusava-me sempre a sair, passar dias no cariri. Quando acontecia, batia o pé, chorava, porque já adorava aquela &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;nonchalance&lt;/i&gt; alagoanovense. Esse apego era tal que&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;cresci achando que o mundo começava e terminava ali. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: AGaramond;"&gt;Mas o tempo foi passando, o ângulo visionário se abrindo, as pessoas se revelando, tudo ficando aborrecido e tacanho. Mas eu era mesmo um alagoanovense com manias chauvinistas e só muito mais tarde é que comecei a pensar Alagoa Nova como uma cidade onde não se permitia nenhuma lembrança. Para mim, estava sempre em permanente demolição, conspirando contra qualquer memória. Não somente uma demolição física, mas também moral e de costumes. Era esse seu gozo, seu espetáculo, sua principal característica. Em algum momento cheguei a imaginar o contrário, hoje não, penso que é uma legitimidade. E, assim como há povos que constroem, há os que destroem; há povos que têm na destruição um sentido de vida, assim como alguns o encontram na construção.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: AGaramond;"&gt;Seria o alagoanovense um povo demolidor? Por que? Para ser fiel a sua própria história, que é quebrada, quase nada? Mas Alagoa Nova não é uma cidade de terremotos, de sismos, a natureza é pacífica. Por que não responde a um ideal? Embora não queira aceitar aquela idéia de quintal da grande cidade, não podemos ignorar que ela se converteu num lugar meio que de passagem, intermediário, como se fora um lugar para nunca se fixar, se estabelecer, parecendo ser apenas o caminho para Campina Grande. Passar por ela e continuar caminhando.&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: AGaramond;"&gt;Os prédios ainda são inspirações ou aspirações de algo que não chegou a ser feito. Por vezes a víamos melhorada, colorida, no entanto sempre esteve inacabada. Não se concluiu. Ou muito pouco. Por isso talvez sonhe com o dia em que alguém possa inaugurá-la, alguém que tenha amor telúrico, vontade política, que rasgue a terra vermelha dos canaviais e ligue-a às terras das bagaceiras através de uma estrada que a aproxime cada vez mais do mar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: AGaramond;"&gt;Em verdade, tenho lembranças amargas de demolições na minha infância: sobrados, casarões, igrejas, fachadas de azulejos portugueses, janelões, monumentos. Eram trastes? Talvez, mas tinham sentido, diziam algo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: AGaramond;"&gt;Minha casa, a casa onde nasci, virou ruína. Pagou pela sina de nunca ter sido realmente completada. O banheiro sempre com cara de tapera; a cozinha, vez por outra faltando um pedaço; o corredor nunca rebocado; o resto era só taipa, engenharia do século dezoito. No entanto nada me regozijava mais do que a vida naquele recanto, a convivência pacífica com os morcegos, baratas, camundongos; o sabugueiro em flor, o flamboiã, a laranjeira-cravo. Eu ficava ali, no quintal, me entregando às mais doces fantasias, me vendo protagonista de algo: amava, casava, fazia amor, lia &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;Os Miseráveis&lt;/i&gt;, fingia ser Jean Valjen. Era o único lugar verdadeiramente íntimo, onde tomava minhas decisões.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: AGaramond;"&gt;Aquela casa da Epitácio Pessoa, 115, era amarela, sala ampla, chão em lajotas carcomidas, corredor, cozinha com pilão, moinho, potes d’água sob os quais se escondiam roliços cururus. Era o meu mundo. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: AGaramond;"&gt;Gostava da leve umidade das tardes. No tempo das chuvas, sonhava com um rio serpenteando no quintal, os sapos em festa, as matutas vindo para a feira dominical, incensando a casa de perfume barato, provocando um rumor confuso de vozes e frases erradas. Matutas esbeltas, peitos redondos, atrevidas e insinuantes. No quintal, os cavalos. Parecia uma estalagem de Pushkin. Ali meu pai encilhava mulas e eu permanecia com o olhar fixo através da soleira da porta, de onde minha mãe vez por outra me mostrava mil constelações no lúgubre céu. O grande flamboiã que eu mesmo plantara, dominava; era meu companheiro predileto. Com ele falava e confessava meus problemas e anseios. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: AGaramond;"&gt;Aos sábados me preparava para o catecismo do Padre Borges, ministrado por Niná Colaço, que passava o tempo a resmungar ave-marias e a observar o asseio dos pivetes, cabelos, joelhos, unhas e falva de Deus, do pecado, principalmente. No dia seguinte eu corria para Edvirges, a velhinha querida do grupo escolar, para questionar as palavras de Niná, mas ela era mais antiga e eu acabava me conformando com o fato de que a única coisa calamitosa do mundo era mesmo o pecado. Conheci, portanto, um Deus carrancudo, vingativo, pronto para punir a qualquer momento. Mas minha mãe interferia e falava de um Deus diferente: bondoso, caridoso, o que criava em minha cabeça uma confusão danada. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: AGaramond;"&gt;E seguíamos assim: pecados, proibições, orações. As descobertas eram temerárias. Os temas referentes à sexualidade só muito tarde passaram a fazer parte de nossas conversas na Praça Epitácio Pessoa. Havia coisas que eu gostaria de entender mas guardava para mim mesmo, até o dia em que alguém comentou do pênis do Padre Borges. Que absurdo! O padre tinha pênis? Excitava-se? E o pecado? A cabeça baqueou. Adauto Silva, tabelião público, usou um termo chamado “sublimar”. O que era mesmo sublimação? Entendi que Padre Borges não pensava em sexo (ou não se excitava) porque sublimava. Perguntei a Xixi, a preta velha querida e sabedora de tudo. Ela alarmou-se, achou que eu estava pecando por palavras. E piorou sua indignação quando perguntei se o padre soltava pum. Foi um deus-nos-acuda. Entendi que um santo homem não podia soltar puns. Mas se o Padre Borges não soltava puns, por que se irava? Xixi dizia que era uma ira santa, a mesma ira de Deus (...).&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1696221081602909999-2121238021152966921?l=luisavelima.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://luisavelima.blogspot.com/feeds/2121238021152966921/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://luisavelima.blogspot.com/2010/09/trecho-do-livro-de-memoria.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1696221081602909999/posts/default/2121238021152966921'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1696221081602909999/posts/default/2121238021152966921'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://luisavelima.blogspot.com/2010/09/trecho-do-livro-de-memoria.html' title=''/><author><name>Luis Avelima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14652451490301112811</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://4.bp.blogspot.com/_z3h_-f0vgz0/THgR0G-9rRI/AAAAAAAAACE/_Wi40mKv1sg/S220/66437_1236564366.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1696221081602909999.post-1816416234621040288</id><published>2010-09-23T09:25:00.000-07:00</published><updated>2010-09-23T09:35:55.168-07:00</updated><title type='text'>Diário de Moscou</title><content type='html'>&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0.9pt 0pt 0in; text-align: justify;"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="font-family: Verdana; font-size: 10pt;"&gt;Trecho do livro "Diário de Moscou"&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0.9pt 0pt 0in; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0.9pt 0pt 0in; text-align: justify;"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="font-family: Verdana; font-size: 10pt;"&gt;Diz a mim o guia que nem todos aprendem a viver nesta cidade. Eu o entendo quando circulo por essas ruas onde só dúvidas caminham comigo -- meio heleno, ruminante, meditativo--, e vou trombando com&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;essa gente em insônia nervosa e&amp;nbsp;latomia de descontentes. Deploro as tantas paredes onde estão pendurados retratos de angústia; tento fazer poesia, consolar aflitos, soprar esperanças por essas mesmas ruas em que os olhos das fechaduras riem e rabiscam a vida dos que vão passando e seguem para morrer na agitação dos dias.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0.9pt 0pt 0in; text-align: justify;"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="font-family: Verdana; font-size: 10pt;"&gt;&lt;span style="mso-tab-count: 1;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;Diz-me o guia que o momento é peculiar. Surge o medo do golpe, desfilam soberanias, bloqueios econômicos, confusões republicanas, paixões exacerbadas. Os ciganos invadem a cidade, incomodam. Onde estavam até 1985? Incomodam-nos os dejetos que circulam, as amargas lembranças do equívoco afegão, os idosos que se postam nas passagens subterrâneas e esmolam e contam de dores inacabadas, fazem caras e bocas, e regurgitam as mentiras escondidas nas entrelinhas dos autoritários manuais. Somos surpreendidos pelos homossexuais saídos dos guetos, os anticomunistas, os anti-semitas, os anti tudo e anti nada. E é quando me engano por essas ruas, que percebo quão amargo é o cotidiano. Passo noites em claro querendo entender a avalanche que teima em explodir no canteiro central desse imenso jardim buocrático. Leio, releio. Não consigo definir o que é Moscou, quem são essas pessoas que passam apressadas e com olhares de ódio e desamparo aparentes e, certamente, que são aqueles que vagam pelas páginas amarelas dos alfarrábios que ninguém mais se importa em folhear.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0.9pt 0pt 0in; text-align: justify;"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="font-family: Verdana; font-size: 10pt;"&gt;&lt;span style="mso-tab-count: 1;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;Pergunto a mim mesmo se devo continuar na masturbação de teses feuerbachianas, discutindo a materialidade do mundo e o empiriocriticismo, ou se vejo o Partido como algo intocável, acima de qualquer suspeita. Mas a pergunta é inevitável: que partido é esse? que partido é esse que se perde e acaba perdendo seu papel de vanguarda, reduzindo-se a um grupelho de líderes cabotinos? &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0.9pt 0pt 0in; text-align: justify;"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="font-family: Verdana; font-size: 10pt;"&gt;&lt;span style="mso-tab-count: 1;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;As discussões são acaloradas quando o assunto é o monopólio do poder. E só mesmo uma mudança radical para que o futuro não nos seja tão triste. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0.9pt 0pt 0in; text-align: justify;"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="font-family: Verdana; font-size: 10pt;"&gt;&lt;span style="mso-tab-count: 1;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;A crise se espalha. As transformações na consciência social vão acarretando o surgimento de movimentos de massa da mais diversa orientação; vivemos a época da democracia de comícios, da liberdade que se traduz por "fazer tudo".&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0.9pt 0pt 0in; text-align: justify;"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="font-family: Verdana; font-size: 10pt;"&gt;&lt;span style="mso-tab-count: 1;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;Ah, Lênin! O que fazer com tua memória, minhas noitadas rurais, a imagem dos velhos "comunas" vagando pelas estradas tortuosas -- caminhos da danação de Alagoa Nova, meu berço --; os bois odiando o vermelho de minha roupa, o dial buscando a Rádio Central, o desejo de correr mundo e assentar o sonho no grande vão da Praça Vermelha, aonde estás deitado, vigiando a utopia que&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;criaste?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0.9pt 0pt 0in; text-align: justify;"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="font-family: Verdana; font-size: 10pt;"&gt;&lt;span style="mso-tab-count: 1;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;Vejo agora essas ruas apinhadas, uma gente que cultua o ódio como se fora uma religião. Não encontro acalanto sequer na imagem dos meninos que se agitam entre corvos e pardais; nas pombas que arrulham nos beirais, nas&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;gárgulas enfeitadas. Vejo mistério dos becos e&amp;nbsp;passagens subterrâneas.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0.9pt 0pt 0in; text-align: justify;"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="font-family: Verdana; font-size: 10pt;"&gt;&lt;span style="mso-tab-count: 1;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;Sinto saudades do Brasil, falta dos cigarros, da cervejinha, do papo-furado sobre cultura; saudade daqueles&amp;nbsp;amigos que pensavam carregar consigo toda a inteligência do mundo e butiquinizavam a cultura do país. Os amigos verdadeiros, os amigos que se foram e se perderam por essa causa que ainda tento abraçar, a poesia cantada pelas esquinas da cidade, as reuniões clandestinas nos arredores da Paulicéia, os porões da Universidade, as surpresas das esquinas, os bancos de praças infestados de percevejos.&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0.9pt 0pt 0in; text-align: justify;"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="font-family: Verdana; font-size: 10pt;"&gt;&lt;span style="mso-tab-count: 1;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;Não sei quando voltarei. Vivo à mercê do Comitê Central e da burocracia existente dentro da burocracia. Por isso, sou obrigado a assistir a essa passeata ameaçadora, embriagando-me com a vodca clandestina, engolindo o blábláblá mal soletrado dos homens do "aparelho", lendo a disputa jornalística da descoberta de crimes stalinistas, vendo o PCUS se debatendo numa tentativa de manter a unidade do país; a defecção de líderes, os democratas que criticam Gorbatchov pelo bloqueio econômico imposto à Lituânia. E a perestróika -- que parecia irreversível, permitindo a mudança do sistema econômico e do regime de sujeição da sociedade em relação ao partido -- passando por um processo difícil, ainda que exija abnegação por parte de todos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0.9pt 0pt 0in; text-align: justify;"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="font-family: Verdana; font-size: 10pt;"&gt;&lt;span style="mso-tab-count: 1;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;Há quem espere milagres: reforma do sistema político, formação de um Estado Socialista de Direito, uma revolução da consciência. Acontece que a burocracia acaba impedindo qualquer passo nessa direção. Mediante a burocracia e no interesse da burocracia, se leva a cabo o principal ataque à perestróika. E todos falam do burocratismo com indignação e paixão: o funcionário do partido, o ator, o médico, o diretor de fábrica, o operário. E falam com insistência e tenacidade. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0.9pt 0pt 0in; text-align: justify;"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="font-family: Verdana; font-size: 10pt;"&gt;&lt;span style="mso-tab-count: 1;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;O que é a burocracia, essa coisa invisível e incompreensível? Sabem dela, mas ninguém a vê. Seria um modo de pensar e agir, a falta de desejo de assumir responsabilidades? O parasitismo, a ineficiência? Preguiça, desejo de viver à custa dos que produzem valores materiais e espirituais?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0in 0.9pt 0pt 0in; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1696221081602909999-1816416234621040288?l=luisavelima.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://luisavelima.blogspot.com/feeds/1816416234621040288/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://luisavelima.blogspot.com/2010/09/diario-de-moscou.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1696221081602909999/posts/default/1816416234621040288'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1696221081602909999/posts/default/1816416234621040288'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://luisavelima.blogspot.com/2010/09/diario-de-moscou.html' title='Diário de Moscou'/><author><name>Luis Avelima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14652451490301112811</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://4.bp.blogspot.com/_z3h_-f0vgz0/THgR0G-9rRI/AAAAAAAAACE/_Wi40mKv1sg/S220/66437_1236564366.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1696221081602909999.post-5075255536869546429</id><published>2010-09-20T20:36:00.000-07:00</published><updated>2010-09-20T20:38:14.095-07:00</updated><title type='text'>Memórias</title><content type='html'>&lt;div class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"&gt;Trecho do livro de memórias, em preparo&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;(....) Teócrito, &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;Aeroaldo, Fausto, Amando, Evaldo Lira (nosso Inseto), Estácio, Josué Graciano, Celeida, Nilzinha, Toinho Bezerra, Tita, Socorro Bernardo, Lidelba, Erlanda, Maria Victor, Marleide Pereira e tantos outros, todos desaparecendo de nossas vidas, buscando caminhos para se tornarem gente decente. E eu crescendo, ouvindo &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;incelenças,&lt;/i&gt; sons de ancoretas, imagens fantásticas se abrindo num sacrário de miçangas, corpos subindo para a glória; uma batida distante de zabumba, uma estrela gigante no céu, um galho de alecrim esbanjando perfume da orelha do matuto, uma alma pisando na encruzilhada onde o corpinho de meu irmão sem nome jazia lá nas bandas do sítio Preguiçoso. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;As incelenças, os mortos em redes, o caixão da prefeitura... A morte tinha mesmo um significado medonho para mim. Os amigos partiam, os enterros se sucediam, velórios de coisas ditas e inconclusas. As flores não podiam suprir as rosas que nunca foram enviadas &lt;personname productid="em vida. Mas" w:st="on"&gt;em vida. Mas&lt;/personname&gt; depois de uma morte, da saída do cemitério, tudo voltava ao normal. A lua continuava surgindo faceira, a poesia sussurrando pelos ares, o horizonte cada vez mais divisor: o mundo que começava &lt;personname productid="em Alagoa Nova" w:st="on"&gt;em Alagoa Nova&lt;/personname&gt;, ainda terminava naquela linha sempre azulada, que se perdia diante de nossos olhos.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;Até hoje sigo pensando que não enviamos flores para Lindolfo Barbosa, Josaphat Rodrigues, Jayme Floro, Oscar Veloso, Zé Basílio, Elisbão, Dona Mintina, Olegário Fernandes, Crescêncio, Joaquim Cândido. E me pego com as mãos na cumbuca, dizendo deles o que jamais disse &lt;personname productid="em vida. Mas" w:st="on"&gt;em vida. Mas&lt;/personname&gt; quem era mesmo essa gente que a história sepultou? Como viveram? Do que viveram? O que fizeram e quais os exemplos que conseguiram deixar?&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;Por exemplo, nunca entendi a avareza de Lindolfo Barbosa, embora gostasse de seus afagos e de quando me chamava “Luleiro”. Foi a figura que mais me marcou. Seu rosto era igual aos daqueles retratos do século dezoito, pendurados nos velhos casarões de engenho. Estava sempre atarefado no sítio Capim de Planta, cultivando arroz e araruta. De repente a idade não mais lhe permitiu descer as ladeiras do engenho Assis. Foi homem de muitas mulheres, ainda que eu só tenha conhecido duas: Maria, que vivia na cidade, e Minervina, com uma penca de filhos, na lama do Capim de Plantas. A última vez que vi Lindolfo foi num caixão. Era uma tarde chuvosa e úmida como o sítio em que viveu.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1696221081602909999-5075255536869546429?l=luisavelima.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://luisavelima.blogspot.com/feeds/5075255536869546429/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://luisavelima.blogspot.com/2010/09/memorias_20.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1696221081602909999/posts/default/5075255536869546429'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1696221081602909999/posts/default/5075255536869546429'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://luisavelima.blogspot.com/2010/09/memorias_20.html' title='Memórias'/><author><name>Luis Avelima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14652451490301112811</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://4.bp.blogspot.com/_z3h_-f0vgz0/THgR0G-9rRI/AAAAAAAAACE/_Wi40mKv1sg/S220/66437_1236564366.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1696221081602909999.post-8138755087618632258</id><published>2010-09-19T19:18:00.000-07:00</published><updated>2010-09-21T13:54:01.028-07:00</updated><title type='text'>A minha tríade perfeita</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_z3h_-f0vgz0/TJeoYHdJUQI/AAAAAAAAADE/7d6iXF3ZMCM/s1600/Lais+e+netos.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" qx="true" src="http://3.bp.blogspot.com/_z3h_-f0vgz0/TJeoYHdJUQI/AAAAAAAAADE/7d6iXF3ZMCM/s320/Lais+e+netos.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;Há um momento em nossas vidas que achamos que nada mais resta, que as coisas vão perdendo o sentido. Não há religião que dê jeito e, embora não entremos em depressão, ela quase nos&amp;nbsp;chega à porta, devagarinho. Eu estava assim, as coisas não aconteciam, uma porção de projetos que não davam &lt;personname productid="em nada.  Minha" w:st="on"&gt;em nada. &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;Minha&lt;/personname&gt; mãe sabia que havia algo de errado em mim mas não tinha palavras para me confortar porque sua simplicidade era maior que ela mesma e as palavras não lhe chegavam conformemente. Mas dizia que algo de bom estava para acontecer. E acertou &lt;personname productid="em cheio. Quando Laís" w:st="on"&gt;&lt;personname productid="em cheio. Quando" w:st="on"&gt;em cheio. Quando&lt;/personname&gt; Laís&lt;/personname&gt; nasceu o mundo me sorria e outro homem também nascia. Laís foi minha luz, a estrela que passou a me guiar em constância, foi minha razão de viver. Ela nada sabe, mas ainda hoje devo-lhe isto, devo-lhe pelo fato de ter-me devolvido à vida.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;Fiquei bobo, tonto, enchi a cara. Seu nascimento foi notícia para todo lado, não foi o nascimento de uma anônima. E todos queriam saber dela, ver suas fotos, enfim. Não conseguia afastar-me, queria ouvir seu choro, dava o mundo por um riso seu. Sofria quando adoecia, varava noites se fosse preciso. Isso talvez só entenda quem já foi pai.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;É curioso todo esse derramamento e meus amigos intelectuais ainda hoje fazem gozações desse tão arraigado sentimento que sempre&amp;nbsp;tomou-me. Mas em todas as rodas, em todos os shows, em todas as viagens havia sempre uma pergunta: como está Laís? E assim foi sempre, pessoas que nem a conhecem.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;Um grande sofrimento foi quando tive que partir para Moscou. Era tão pequena. Não foram poucas as vezes em que me peguei matutando, querendo desistir da viagem porque achava que&amp;nbsp;iria me esquecer. Na então capital soviética a angústia me tomava e acabou&amp;nbsp;por piorar quando recebi a notícia da morte de minha mãe. Os trens todos de Moscou passaram por cima de mim. Mas quando chorava o rostinho de Laís me aparecia em sonho dizendo que estava tudo bem.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;O tempo passou e me dou conta de que nunca consegui escrever-lhe um poema. No fundo, acho que ela &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;é mesmo o meu poema melhor acabado. &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;Agora chegaram Yuri e Henri, as rimas que faltavam no poema. Laís é mãe de Yuri e Henri, os gêmeos que me tornaram, de novo, um&amp;nbsp;bobo. E o mais incrível é que chegaram num momento difícil de minha vida. Mas como aconteceu quando sua mãe nasceu, eles me restituíram também a alegria de viver. E vivo assim para amá-los. É minha tríade eterna.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1696221081602909999-8138755087618632258?l=luisavelima.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://luisavelima.blogspot.com/feeds/8138755087618632258/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://luisavelima.blogspot.com/2010/09/minha-triade-perfeita.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1696221081602909999/posts/default/8138755087618632258'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1696221081602909999/posts/default/8138755087618632258'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://luisavelima.blogspot.com/2010/09/minha-triade-perfeita.html' title='A minha tríade perfeita'/><author><name>Luis Avelima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14652451490301112811</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://4.bp.blogspot.com/_z3h_-f0vgz0/THgR0G-9rRI/AAAAAAAAACE/_Wi40mKv1sg/S220/66437_1236564366.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_z3h_-f0vgz0/TJeoYHdJUQI/AAAAAAAAADE/7d6iXF3ZMCM/s72-c/Lais+e+netos.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1696221081602909999.post-77268041731120490</id><published>2010-09-19T18:26:00.000-07:00</published><updated>2010-09-20T08:32:21.971-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;Do livro de memórias&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;(...) A cidade vivia sem grandes emoções. Se nada acontecia na Epitácio Pessoa, dava uma passada na praça central, onde certamente estavam os rapazes e as garotas, com idade entre os dezoito e vinte, em animadas conversas, ou então tocando violão. Havia os charmosos os, conquistadores, os elegantes, os matemáticos: Estácio Graciano, Zé Fausto, Teócrito Leal, Nilton Bezerra, seu irmão Toinho, Evaldo Lira. As garotas? Margarida Germano, Lidelba e sua irmã Erlanda, Socorro Maul, Nilzinha, Zenaide Mendonça, Eurides Torres, Maria e Eulália Vitor, as mais meninas como Ana Maria, Graça Bernardo, Vânia...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;Um momento mágico era quando se iniciavam os preparativos para a festa do santo padroeiro. A cidade se enfeitava com parques, pavilhões, bazares e, principalmente, com a beleza trigueira das roceiras. Lembro-me do Parque Maia, do mestre Olívio, de &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;seu&lt;/i&gt; Medeiros e da última festa que presenciei: acordei cedo e descobri que todos os brinquedos haviam partido, indo embora o sonho, o cachorro-quente do mestre Olívio, os jujus, as canoas, a roda gigante, os pastoris, os leilões, a amplificadora com seus “postais sonoros”, o fim de minha inocência.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;Quando a vida voltava ao normal, Dona Joana continuava vendendo seus bolos e cafés; João Sapateiro batendo sola de sapato; Horácio Sobral sujando o ar com o pó da madeira de sua &lt;i&gt;movelaria&lt;/i&gt;; Zé Rocha pendurado na janela, instigando a garotada; &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;seu&lt;/i&gt; Paizinho aplicando injeções; Mané Buião, ao lado do bilhar, tossindo, tossindo, sem controlar a maldita tuberculose que o matava diuturnamente; Zé Floro, sentado em seu “escritório” remendando notas velhas; a “sopa” de Supimpa subindo para Campina Grande; o velho Irineu com sua jumenta de estimação enchendo as cisternas e potes da comunidade; Pedro Macena contando estórias mirabolantes e tocando sua gaita; Loré Barata Preta embriagando a vida pelos monturos; Tonha Doida, de cara rosada de papel crepom, conversando com seus fantasmas pela rua grande; Zé do Pife, com seus dentes bichados, atendendo aos pedidos da garotada; e no velho mercado Totó de Sebo, senhora absoluta, tirava de sua trempe um esquisito caldo com cheiro de gordura de porco, misturando-se ao fedor de urina vindo do beco, invadindo o lixão da prefeitura. Na lembrança, o último carrossel de minha vida.&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1696221081602909999-77268041731120490?l=luisavelima.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://luisavelima.blogspot.com/feeds/77268041731120490/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://luisavelima.blogspot.com/2010/09/do-livro-de-memorias.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1696221081602909999/posts/default/77268041731120490'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1696221081602909999/posts/default/77268041731120490'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://luisavelima.blogspot.com/2010/09/do-livro-de-memorias.html' title=''/><author><name>Luis Avelima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14652451490301112811</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://4.bp.blogspot.com/_z3h_-f0vgz0/THgR0G-9rRI/AAAAAAAAACE/_Wi40mKv1sg/S220/66437_1236564366.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1696221081602909999.post-4684513406237560115</id><published>2010-09-19T18:21:00.000-07:00</published><updated>2010-09-20T08:34:16.725-07:00</updated><title type='text'>Memórias</title><content type='html'>&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; mso-outline-level: 1; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;Trecho de livro de memórias em preparo&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; mso-outline-level: 1; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; mso-outline-level: 1; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;(...)&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; mso-outline-level: 1; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; mso-outline-level: 1; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;Cacaso, o poeta, falava de um brasileiro muito conhecido, mas pouco observado, aquele de estatura mediana. Hoje eu compreendo que ser um brasileiro acabado é ser alagoanovense. Vejo que as nações elegem ciosamente seus filhos exemplares e os honram como tais. A Inglaterra tem Shakespeare, a Itália um Dante, a Espanha tem Cervantes. Todos encarnam respectivamente o gênio da pátria que os viu nascer.&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;Quem disse isso? Miguel Torga?&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;Alagoa Nova tem a mim. A mim? E quem mais se iguala a mim, senão, com toda certeza, um outro alagoanovense?&amp;nbsp;Vejamos: Gonzaga Rodrigues, Teócrito Leal, Toinho Bezerra, Eudes Barros, José Saldanha, Jeová Colaço,&amp;nbsp;Péricles Leal, Analice Caldas, Padre José Borges de Carvalho,&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;Wills Leal, Evaldo Lira, &amp;nbsp;um Estácio Graciano,&amp;nbsp;que era para mim o símbolo de uma geração, e na conta de alguns desses terem morrido, acrescentemos ao time um filho postiço: Clodoaldo Muniz. Todos devendo ser honrados. E sabe por que? Porque nenhum como nós testemunhou tão vincadamente os estigmas de nossa gente, no melhor e no pior. Embora muitos reconheçam que somos poucos, com a velha mania de anular, de achar que somos tão anódinos como qualquer anônimo brasileiro que nasce no Quixadá, cresce ao deus-dará, corre seca e meca, atravessa as águas do Orós, do São Francisco, e regressa para casa para morrer pobre e incompreendido. Como Camões.&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;Sabe o que acho? Que Alagoa Nova nunca esteve morta nem esgotada; que o difícil para cada alagoanovense (ainda lembrando Miguel Torga) não é sê-lo; é compreender-se. Nunca soubemos, talvez, olhar friamente para nós no espelho da vida, porque a paixão nos tolda a vista. Daí a espécie de obscura inocência com que atuamos &lt;personname productid="em sua Hist�ria. A" w:st="on"&gt;em sua História. A&lt;/personname&gt; poder e a valer, nem sempre temos a consciência do que podemos e valemos. Hipertrofiamos provincianamente as capacidades alheias e minimizamos maceradamente as nossas, sem nos lembrarmos de que uma criatura só não presta quando deixa de ser inquieta. E nós somos a própria inquietação encarnada. (...)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1696221081602909999-4684513406237560115?l=luisavelima.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://luisavelima.blogspot.com/feeds/4684513406237560115/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://luisavelima.blogspot.com/2010/09/memorias.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1696221081602909999/posts/default/4684513406237560115'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1696221081602909999/posts/default/4684513406237560115'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://luisavelima.blogspot.com/2010/09/memorias.html' title='Memórias'/><author><name>Luis Avelima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14652451490301112811</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://4.bp.blogspot.com/_z3h_-f0vgz0/THgR0G-9rRI/AAAAAAAAACE/_Wi40mKv1sg/S220/66437_1236564366.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1696221081602909999.post-8699992423227701767</id><published>2010-09-19T18:15:00.000-07:00</published><updated>2010-09-20T11:28:46.987-07:00</updated><title type='text'>Um encontro com Patativa do Assaré</title><content type='html'>&lt;div class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: right;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_z3h_-f0vgz0/TJent2k8MGI/AAAAAAAAAC8/3lV8Cfn0vq8/s1600/patativa_do_assare.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" qx="true" src="http://1.bp.blogspot.com/_z3h_-f0vgz0/TJent2k8MGI/AAAAAAAAAC8/3lV8Cfn0vq8/s320/patativa_do_assare.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;Trecho de livros de memórias em preparo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;(...)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;São Paulo me comove. Suas figuras, aqueles&amp;nbsp;desprovidos de sentimento, crianças, adolescentes, adultos e, principalmente, velhos. A velhice me comove, sempre me comoveu. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;Um dia, Patativa do Assaré chegou de mansinho. Foi-me apresentado por Expedito Filho, o conhecido radialista Mano Novo. Em pleno centro de São Paulo eu mirava aquela figura franzina que vinha do Ceará em busca de uma córnea que lhe permitisse voltar a enxergar. Mais que tudo, voltar a enxergar sua Belinha, mãe de seus sete filhos, sete gladiadores, iguais aos da história romana. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;Embora sua vida estivesse escancarada, repetia o lugar de nascimento, que começou a versejar por volta dos onze ou doze anos, que a partir daí seguiu cantando as dores apaixonadas dos sertanejos, a invasão “atristurante” dos exércitos de fantasmas compostos de homens desfigurados, mulheres macilentas e crianças a sugar em seios maternos os últimos resíduos de uma seiva inexistente.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;Impressionava-me sua vitalidade aos 79 anos. De estrutura mirrada, talvez não passasse de 1,50m, se agigantava quando cantava seu canto destemido. Mais declamava que conversava. Caminhava com dificuldade, pois tinha uma perna recheada de grampos. Ainda assim, andamos em círculo pela Praça da República, centro de São Paulo. Eu perguntando, ele reclamando da quase cegueira.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;-- Eu com nada me aquebranto, viu? Tenho sofrido muito. Olhe essa perna, está toda grampeada. Um carro me colheu em Fortaleza, me obrigando a ficar um ano e meio no Rio de Janeiro para tratamento. De modo que a marcha da vida tem sido um pouco espinhosa para mim, mas nunca conseguiram me tirar a alegria, o prazer, e a primeira qualidade que é compor minha poesia.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;O tempo ia mudando. Deolinda, uma loura cearense que o acompanhava por toda parte, me pedia para sentar. Patativa ria:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;-- Esta é Diolinda, minha lilinda, meu anjo protetor. Para mim, que não tenho visão, ela tá sempre me avisano.&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;O céu de São Paulo mostrava-se carrancudo. Patativa se despedia e me convidava para o lançamento de seu livro “Poesia e Fulô”. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;-- Tu vai?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;-- Claro!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;-- Ah, ah, tu num vai não. Eu te conheço de outros sertão! &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1696221081602909999-8699992423227701767?l=luisavelima.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://luisavelima.blogspot.com/feeds/8699992423227701767/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://luisavelima.blogspot.com/2010/09/um-encontro-com-patativa-do-assare.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1696221081602909999/posts/default/8699992423227701767'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1696221081602909999/posts/default/8699992423227701767'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://luisavelima.blogspot.com/2010/09/um-encontro-com-patativa-do-assare.html' title='Um encontro com Patativa do Assaré'/><author><name>Luis Avelima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14652451490301112811</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://4.bp.blogspot.com/_z3h_-f0vgz0/THgR0G-9rRI/AAAAAAAAACE/_Wi40mKv1sg/S220/66437_1236564366.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_z3h_-f0vgz0/TJent2k8MGI/AAAAAAAAAC8/3lV8Cfn0vq8/s72-c/patativa_do_assare.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1696221081602909999.post-2498938761906753138</id><published>2010-09-15T19:29:00.000-07:00</published><updated>2010-09-20T11:39:16.469-07:00</updated><title type='text'>Sobre Wilson Simonal</title><content type='html'>&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_z3h_-f0vgz0/TJeqTA9zMpI/AAAAAAAAADU/0jRxMkTrs4M/s1600/Simonal.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" qx="true" src="http://1.bp.blogspot.com/_z3h_-f0vgz0/TJeqTA9zMpI/AAAAAAAAADU/0jRxMkTrs4M/s320/Simonal.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-size: 14pt;"&gt;Houve um tempo em que todo mundo virou as costas para Wilson Simonal. Não foram poucos os que o desclassificaram e buscaram apagar sua história, juntando num mesmo liquidificador inveja, racismo e sei lá mais o quê. Principalmente os que se diziam militantes culturais de esquerda ou, na falta do que fazer, viviam expelindo regras e se mostrando defensores de sua própria liberdade de expressão, porque os interesses eram sempre individuais, raramente coletivos. Eu mesmo cheguei a questionar a postura do artista incentivado por tudo aquilo que os jornais publicavam.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt;"&gt;Depois de ler o &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;Pasquim&lt;/i&gt; compreendi que Simonal já era como um leproso, ninguém queria chegar perto, o amigos dos tempos de noitadas fartas negavam a “amizade”. A crucificação pública seria demorada.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt;"&gt;Conheci Simonal no meio desse &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;embroglio&lt;/i&gt; todo, acompanhei de certa forma sua angustia e seu silencio imposto. Vi-o muitas vezes tentando uma justificativa pífia.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt;"&gt;Anos depois, atuando como produtor cultural &lt;personname productid="em São Paulo" w:st="on"&gt;em São Paulo&lt;/personname&gt;, constantemente recebia sua visita em meu escritório. Ele procurava o espaço que por direito também era seu: o palco. E, de fato, chegamos a realizar alguma coisa.. Já não tinha a mesma voz, aquela voz que dominava espaços, como é o caso do famoso show do Maracanãzinho. Passávamos horas conversando. O assunto do passado sempre tinha algum espaço nessas conversas. Mas a cada dia perdia a força de repetir que não era culpado, apesar dos documentos de Brasília que ele queria mostrar e ninguém queria ver.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt;"&gt;Estivemos juntos em alguns espaços musicais. Noutros, era pego de surpresa com sua chegada, sempre discreta. Uma noite no Café Piu-Piu, minha amiga Alaíde Costa cantava. Era um show, como sempre, de grande beleza, intimista, sofrido. Num momento virei-me e dei de cara com &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;Simonal de pé, na penumbra. Fui até ele, nos abraçamos. Estava sóbrio. Pedi licença um instante, fui ao palco e coxixei no ouvido de Alaíde. Voltei ao seu lado sem nada lhe dizer. Terminada uma música Alaíde fez um rasgado elogio ao artista, agradeceu sua presença e chamou-o ao palco. Ele não esperava. Deu-me um beliscão, uma batida nas costas, virou-se pro balcão e pediu urgentemente uma dose. Virou o copo e foi ao palco. Uma noite memorável&lt;/span&gt;. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: 14pt;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: 14pt;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt;"&gt;Mais alguns anos se passaram. Estávamos em seu velório eu, Jair Rodrigues, sua esposa Clodine, Kiko Egídio, Wanderléa, Simoninha, sua irmã, Sandra e Nicéia Pita (que chegou protegida por um colete a prova de balas). Depois, parece-me, chegou seu filho Max, quando o corpo estava prestes a sair para o cemitério&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt;"&gt;“Meu Deus, pensava eu, como uma coisa dessas pode acontecer? Por que esse vazio?" Ali estávamos apenas nós a velar-lhe.&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;Imaginei esse vazio repetido no cemitério, mas o cantor Silvio Brito me diria mais tarde que chegaram várias pessoas para o adeus. Menos mal.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt;"&gt;No velório de Simonal, meu pensamento vagava. Eu não estava ali, ele não estava ali, ninguém estava ali. O cenário era o Maracanãzinho de 1969, com suas dez, dez, dez mil pessoas de frente, do lado, de lado... &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;Mas que besteira: o ano era 2000, 25 de junho. No caixão, meu amigo Wilson Simonal. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt;"&gt;O tempo passa. Seu nome continua em pauta, principalmente depois do filme em que demonstra o duro que deu na vida. E a pergunta ainda a vagar: dedurou?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt;"&gt;E por que essa lembrança?&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;É que hoje, 13 de setembro, leio nos jornais que no Rio de Janeiro artistas o celebram, entre eles Caetano Veloso. O que acontece? Volta o velho ditado: para ser bom precisa morrer.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1696221081602909999-2498938761906753138?l=luisavelima.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://luisavelima.blogspot.com/feeds/2498938761906753138/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://luisavelima.blogspot.com/2010/09/sobre-wilson-simonal.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1696221081602909999/posts/default/2498938761906753138'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1696221081602909999/posts/default/2498938761906753138'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://luisavelima.blogspot.com/2010/09/sobre-wilson-simonal.html' title='Sobre Wilson Simonal'/><author><name>Luis Avelima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14652451490301112811</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://4.bp.blogspot.com/_z3h_-f0vgz0/THgR0G-9rRI/AAAAAAAAACE/_Wi40mKv1sg/S220/66437_1236564366.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_z3h_-f0vgz0/TJeqTA9zMpI/AAAAAAAAADU/0jRxMkTrs4M/s72-c/Simonal.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1696221081602909999.post-4405397302870068154</id><published>2010-09-15T19:11:00.000-07:00</published><updated>2010-09-20T11:35:25.238-07:00</updated><title type='text'>Eu amei Victoria Blue</title><content type='html'>&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_z3h_-f0vgz0/TJepZLshTMI/AAAAAAAAADM/MbCWLPFyax8/s1600/eu_amei_alta1.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" qx="true" src="http://3.bp.blogspot.com/_z3h_-f0vgz0/TJepZLshTMI/AAAAAAAAADM/MbCWLPFyax8/s320/eu_amei_alta1.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-size: 14pt;"&gt;Podemos ler o livro imaginando uma sequência cinematográfica: ruas de Nova York, Central Park, guetos, encontros furtivos, vida e morte sob as luzes imorredouras da cidade –mundo. Mas aí ficaria uma leitura comum, boba, beirando aquele estereótipo a que nos acostumamos na telinha. Podemos até encarar o livro como uma série de televisão, como lembra Caio Tulio Costa na orelha, mas temos mesmo&amp;nbsp;que lê-lo como uma obra literária que nos toca, que nos ensina, que nos apresenta um autor de tão pouca idade mas tão adulto na escrita. Refiro-me a &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;Eu amei Victoria Blues&lt;/i&gt;, de Estêvão Romane, recém lançado pela Geração Editorial.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt;"&gt;Aparentemente uma história simples: um garoto brasileiro muda-se para Nova Iorque para estudar e, num de repente, torna-se presa de uma garota fenomenal, também brasileira, que vive naquela cidade, embora com outros objetivos: o de todo imigrante comum de uma milionésima leva: dinheiro ou fama&amp;nbsp;– que não é o caso do referido garoto, diga-se de passagem.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt;"&gt;Do primeiro encontro ao fim sofrido de um romance novelesco (no melhor sentido) nos pegamos enfrentando os deslizes da alma humana. Não é somente a história de um jovem de vinte e poucos anos, já um amante “inveterado” do sexo, que se apaixona perdidamente, mas um tratado psicológico(sem psicologismos), um escancaramento da possibilidade que tem o ser humano de transmudar-se, de afundar-se nas águas da mentira, que tanto pode ser sua ruína como também sua salvação. Ela se chama Fernanda, ele Davi. Mentir para Fernanda é a forma de sobreviver num mundo que teima em ameaçar-lhe com o passado difícil, nebuloso. Quer amar de verdade, precisa amar de verdade, mas a mentira está ali para impedir, para mascarar tudo. Ela é uma máscara. Pensando assim, quem sabe a máscara veneziana que o amante encontra em suas coisas (uma citação casual apenas) não seja algo simbólico na vida confusa que ele vai descobrir em Fernanda?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt;"&gt;Davi mostra-se mais adulto do que é em verdade. É capcioso, as coisas lhe aparecem embaralhadas, como quebra-cabeças, mas ele demonstra capacidade de ordená-las. E vai desenrolando um carretel de surpresas. Quem é ela ? O que faço? Onde me enredo? Ele sabe que está entrando nas mesmas águas, que também está se afogando, mas tem a sapiência de procurar a melhor forma de nadar e sair em braçadas rápidas para reparar sua própria vida. E sanidade.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt;"&gt;Eu amei Victoria Blue&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-size: 14pt;"&gt; deve ser um acontecimento literário. Deverá atingir qualquer tipo de publico por seus ingredientes: sexo, poesia, refinamento no comer, no beber e no ouvir, por exemplo, e uma pincelada na vida diuturna de uma das mais interessantes e curiosas cidades do mundo. Mas acima de tudo atingirá pela escrita.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt;"&gt;Conheci seu autor no dia em que nasceu, de certa forma acompanhei sua trajetória. Nenhuma surpresa ao ler o livro, principalmente ao saber que vem de boa cepa (os pais sabem escrever) e que sempre conviveu com o melhor em termos de literatura, música e boa mesa.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1696221081602909999-4405397302870068154?l=luisavelima.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://luisavelima.blogspot.com/feeds/4405397302870068154/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://luisavelima.blogspot.com/2010/09/eu-amei-victoria-blue.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1696221081602909999/posts/default/4405397302870068154'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1696221081602909999/posts/default/4405397302870068154'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://luisavelima.blogspot.com/2010/09/eu-amei-victoria-blue.html' title='Eu amei Victoria Blue'/><author><name>Luis Avelima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14652451490301112811</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://4.bp.blogspot.com/_z3h_-f0vgz0/THgR0G-9rRI/AAAAAAAAACE/_Wi40mKv1sg/S220/66437_1236564366.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_z3h_-f0vgz0/TJepZLshTMI/AAAAAAAAADM/MbCWLPFyax8/s72-c/eu_amei_alta1.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1696221081602909999.post-2638664564083405105</id><published>2010-08-27T12:11:00.000-07:00</published><updated>2010-08-27T12:11:46.536-07:00</updated><title type='text'>Poemas do livro Maismequer, 1986</title><content type='html'>I&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada direi do que não conheço&lt;br /&gt;Penteio os cabelos em desalinho&lt;br /&gt;E espero-te na madrugada&lt;br /&gt;Drogado de riso e pranto&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IX&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando punimos a luz,&lt;br /&gt;cegos, extraviamos a surpresa.&lt;br /&gt;No silêncio das portas, mofo;&lt;br /&gt;fechado em mim, o segredo.&lt;br /&gt;Na casa, tudo tão vago.&lt;br /&gt;Daria tudo, amor,&lt;br /&gt;não ser somente o que sou.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1696221081602909999-2638664564083405105?l=luisavelima.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://luisavelima.blogspot.com/feeds/2638664564083405105/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://luisavelima.blogspot.com/2010/08/poemas-do-livro-maismequer-1986.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1696221081602909999/posts/default/2638664564083405105'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1696221081602909999/posts/default/2638664564083405105'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://luisavelima.blogspot.com/2010/08/poemas-do-livro-maismequer-1986.html' title='Poemas do livro Maismequer, 1986'/><author><name>Luis Avelima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14652451490301112811</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://4.bp.blogspot.com/_z3h_-f0vgz0/THgR0G-9rRI/AAAAAAAAACE/_Wi40mKv1sg/S220/66437_1236564366.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry></feed>
